Por Severino Angelino, psicanalista
Se você está lendo isto no papel ou na tela do celular, faça um teste rápido de memória. Quando foi a última vez que passou cinco minutos em silêncio de verdade? Sem música, sem feed, sem televisão ligada ao fundo, sem olhar o WhatsApp.
Para a maioria das pessoas, a lembrança demora a vir. E a ideia de repetir a experiência causa mais incômodo do que alívio.
Vivemos em tempo de preencher tudo. Na fila do banco, no elevador, no semáforo fechado, no instante exato antes de dormir, a mão vai sozinha até o bolso atrás do smartphone. O vazio virou algo que mal toleramos. Cabe perguntar o que estamos evitando quando recheamos cada segundo do dia com estímulos digitais.
No consultório, vejo que essa pressa de nos manter ocupados vai além da busca por produtividade ou distração. Funciona como defesa. Corremos para não escutar, olhamos para a tela para não olhar para dentro. O barulho de fora anestesia o barulho de dentro, que costuma ser desorganizado e, às vezes, angustiante.
Ficar a sós com os próprios pensamentos nos coloca diante do que a psicanálise chama de falta: aquilo que nunca se completa em nós e que, justamente por isso, move o desejo. No silêncio, voltam as perguntas que passamos o dia adiando. Estou feliz no meu relacionamento? De onde vem essa angústia que não passa? O que estou fazendo da minha vida? Quando o estímulo externo cessa, o inconsciente ganha espaço para falar, e para muita gente essa voz assusta.
O paradoxo é que, ao fugir do desconforto do tédio, perdemos o terreno onde a saúde mental se sustenta. O psicanalista inglês Donald Winnicott defendia que a capacidade de ficar só é uma conquista do amadurecimento emocional. Ela nasce na infância, quando a criança consegue brincar sozinha por se sentir segura com alguém por perto. É nesse intervalo, sem demanda e sem plateia, que a criatividade e o desejo ganham forma e que elaboramos o que vivemos. Sem esse intervalo, viramos repetidores de conteúdo alheio e sobra pouco tempo para digerir a própria história.
Vale distinguir, aqui, solitude de solidão. A solidão dói porque falta alguém. A solitude é a companhia que conseguimos fazer a nós mesmos, e ela precisa ser exercitada, como qualquer outra capacidade.
Nada disso é um ataque à tecnologia. O celular é uma ferramenta excelente de conexão e ninguém precisa abandoná-lo. O problema aparece quando dependemos do estímulo constante para não nos encontrarmos. Se toda brecha de introspecção é trocada por um vídeo de poucos segundos, nossa tolerância à frustração e à solitude enfraquece. O preço costuma ser cansaço mental e uma sensação persistente de vazio.
Talvez o gesto mais corajoso hoje seja, de vez em quando, não fazer nada. Deixar o tédio chegar e suportar o silêncio. Da próxima vez que perceber a mão indo ao celular sem motivo, espere dois minutos. Respire e deixe o pensamento correr. Você pode se surpreender, ou até se assustar, com o que vai ouvir. Ainda assim, é por aí que começa a escuta de si.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




