spot_img

Burguesia, qual setor teu defenderá a democracia burguesa?

A política defendida pelo mercado para o governo Lula IV está clara: um ajuste fiscal abusivo. Para além do debate de ordem “técnica e racional” dos economistas diplomados, nós, contabilistas de padaria — com todo o respeito aos padeiros e aos contadores —, podemos entender isso como: cortes em benefícios sociais e ausência de investimentos na economia brasileira, aquela que produz emprego e renda.

Não custa lembrar: esse mesmo mercado apoiou euforicamente Flávio Bolsonaro, aquele que prometia um corte na ordem de 200 bilhões de reais em políticas sociais.

Esse debate ocupou páginas e páginas dos jornais nos últimos dias, cedendo espaço apenas às midterms estadunidenses. Ora! E quem diria que a percepção de uma piora na qualidade de vida dos americanos, provocada pelas políticas inconsequentes de Trump, seria responsável pela derrota acachapante do Laranjão?

Voltando ao Brasil, o que o mercado impõe de maneira gângster ao governo Lula — por exemplo, interrompendo a redução da SELIC — é uma traição aos milhões de brasileiros e brasileiras que saíram às ruas com o objetivo de reeleger o petista. Caso Lula aceite realizar o ajuste fiscal, não precisa ser um economista diplomado para especular sobre os impactos que isso terá na vida do trabalhador brasileiro e, consequentemente, na popularidade do governo.

Seguindo nessa hipótese, a baixa aprovação de Lula traria dificuldades para que ele elegesse um sucessor. Ao mesmo tempo, apostar que o bolsonarismo não chegará a 2030 com força real para vencer a eleição é demasiadamente arriscado. Quando Jair Bolsonaro foi preso, em 2025, não faltaram analistas para sentenciar que o candidato da direita em 2026 seria Tarcísio…

E é aqui que entra a provocação exposta no título: qual setor da burguesia brasileira defenderá a democracia do próprio país? Ademais, qual setor da burguesia brasileira se insurgirá contra esta astronômica taxa de juros, fator com alto potencial de gerar instabilidade no regime do país?

Todos aqueles que dizem defender a democracia brasileira devem tomar a última questão como central. Caso o novo governo aplique uma política de ajuste fiscal, o principal efeito será aumentar a descrença e a desconfiança nas instituições, que já são altíssimas. Não há estabilidade possível com um povo insatisfeito.

E se esse povo insatisfeito decidir, mais uma vez, aventurar-se no canto da sereia da extrema-direita? Até quando aceitaremos viver reféns de tal sombra?

Os economistas diplomados adoram falar em expectativas. A ciência política também: se o povo não tiver a expectativa de que sua vida irá melhorar, uma miríade de possibilidades poderá se concretizar, inclusive a de defecar nas mesas do STF.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

Leia Também

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Últimas dos Blogs