Presidente tentou deixar o cargo durante a sessão que discutia seu afastamento, mas parlamentares rejeitaram a renúncia. Oposição teme que a saída antecipada garanta imunidade vitalícia e impeça sua responsabilização criminal.
O Paraguai mergulhou em uma grave crise política e institucional nesta quarta-feira (5). Em meio ao escândalo financeiro envolvendo o Banco Ueno e às acusações que ameaçam seu governo, o presidente Santiago Peña apresentou sua renúncia ao cargo justamente quando a Câmara dos Deputados iniciava a sessão para discutir seu impeachment. A tentativa de deixar a Presidência, entretanto, foi rejeitada pelos parlamentares, que decidiram dar prosseguimento ao processo de afastamento.
O desfecho da sessão foi marcado por uma disputa decisiva: de um lado, a possibilidade de Peña permanecer no cargo e enfrentar o julgamento político; de outro, o risco de sua renúncia abrir caminho para uma condição jurídica que poderia dificultar sua responsabilização perante a Justiça.
Pelas regras paraguaias, um ex-presidente pode assumir uma cadeira de senador vitalício, sem direito a voto, mas com prerrogativas constitucionais. A possibilidade de Peña deixar o governo por essa via provocou forte reação da oposição, que vê na renúncia uma tentativa de escapar das consequências judiciais das acusações.
Senadora denuncia tentativa de garantir impunidade
Durante os debates parlamentares, a senadora Esperanza Martínez fez um pronunciamento contundente contra a possibilidade de aceitação da renúncia. Para ela, a saída de Peña antes da conclusão do processo de impeachment poderia representar uma oportunidade de escapar da Justiça.
A parlamentar apresentou dois cenários para o desfecho da crise. No primeiro, Peña permaneceria na Presidência enquanto o Congresso conduzisse o julgamento político, permitindo que as instituições continuassem trabalhando e que ele apresentasse sua defesa.
No segundo, a renúncia seria aceita, abrindo caminho para que o presidente deixasse o país sem enfrentar imediatamente as consequências do processo.
“Se hoje aceitarem a renúncia de Santiago Peña, ele sairá daqui como senador vitalício, sem que ninguém possa tocá-lo. Poderá embarcar no avião que quiser, fazer o mesmo que Bolsonaro fez, ser recebido por algum governo amigo — e ele tem vários — e debochar de nós”, afirmou Esperanza Martínez.
A senadora também questionou o patrimônio acumulado pelo presidente. Segundo ela, Peña teria construído uma fortuna incompatível com as declarações feitas durante sua campanha eleitoral, quando dizia não ter dinheiro, não possuir casa e ter apenas um automóvel usado.
“Quando era candidato, dizia: ‘Não tenho dinheiro, não tenho casa, tenho apenas um carro de cinco anos’. Agora é milionário, e ninguém sabe onde está o dinheiro”, declarou.
Esperanza também cobrou explicações sobre as dezenas de viagens internacionais realizadas pelo presidente, incluindo passagens por Luxemburgo, Hungria e Emirados Árabes Unidos. A parlamentar questionou quais benefícios concretos essas viagens teriam proporcionado à população paraguaia.

Ao concluir seu pronunciamento, fez um apelo direto aos congressistas: “Vocês querem que ele simplesmente saia caminhando, embarque em um avião particular e, assim como Bolsonaro, seja protegido por outro governo? É isso que vão fazer, colegas? Não mintam para a população!”
Crise política chega às ruas e aos mercados
Enquanto os deputados discutiam as acusações contra Peña, milhares de paraguaios voltaram a ocupar as imediações do Congresso Nacional. Os protestos chegaram à terceira noite consecutiva, com manifestantes acompanhando os pronunciamentos parlamentares e cobrando respostas para a crise.
O julgamento político prossegue nesta sexta-feira, com a apresentação da defesa do presidente. Integrantes do Senado estimam que o procedimento poderá ser concluído em um único dia, embora não descartem a possibilidade de prolongamento dos trabalhos.
Até a decisão final, o Paraguai permanece em um cenário de incerteza institucional. Peña continua formalmente no exercício da Presidência, mas sua capacidade de governar está profundamente comprometida. O vice-presidente Alliana também permanece em compasso de espera, sem uma agenda efetiva de governo.
A turbulência política já produz reflexos na economia. O risco-país paraguaio registrou alta de 23% nos últimos dias de negociação, enquanto o guarani sofreu forte desvalorização diante do dólar.
Em apenas uma semana, a moeda passou de 5.661 para 6.160 guaranis por dólar, uma queda de aproximadamente 8,8% em seu valor frente à moeda norte-americana.
Banco Central começa a devolver dinheiro aos depositantes
Em meio à crise, uma notícia trouxe algum alívio aos clientes afetados pelo encerramento das atividades do Banco Ueno.
Durante a noite de quarta-feira, o Banco Central iniciou o pagamento dos primeiros depositantes que tiveram seus recursos congelados. Nesta etapa inicial, foram contemplados clientes com valores de até 10 milhões de guaranis, aproximadamente € 1.448, sem dívidas pendentes e que possuam contas em outras instituições financeiras.
O início dos pagamentos representa uma primeira resposta concreta aos poupadores prejudicados, mas não encerra as preocupações sobre a dimensão do escândalo financeiro.




