“Um líder fica. Paga o preço. Vai para a cadeia ou não.” A frase é de Silas Malafaia, um dos mais conhecidos aliados da família Bolsonaro, no documentário Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa.
Na ocasião, o pastor criticava a decisão de Jair Bolsonaro de viajar para os Estados Unidos em 30 de dezembro de 2022, dois dias antes da posse de Lula. E apontava justamente o petista como exemplo de quem permaneceu no Brasil, mesmo diante da possibilidade de prisão. “Ele fugiu? Não. Postura de um líder”, afirmou.
Malafaia talvez não imaginasse que suas palavras fariam o caminho de um bumerangue. Lançadas contra Bolsonaro, elas agora retornam ao mesmo campo político, impulsionadas pelos acontecimentos envolvendo seu filho, Flávio Bolsonaro.
Em 26 de outubro de 2026, um dia após a eleição em que Flávio Bolsonaro foi derrotado, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que o senador entregasse seus passaportes e o proibiu de deixar o país. Após o descumprimento da ordem no prazo estabelecido, a Polícia Federal cancelou os documentos brasileiros. No dia seguinte, Flávio fugiu para os Estados Unidos, passando pela Argentina.
Os episódios têm circunstâncias jurídicas próprias, mas o contraste político é inevitável. E as palavras lançadas por Malafaia permaneceram, atravessaram o tempo e voltaram. Não foram necessárias novas acusações nem discursos inflamados. Bastou que os acontecimentos as encontrassem pelo caminho.
O pastor evangélico acertou quando disse que um líder fica. Acertou também quando disse que o líder paga o preço. E é fato que Lula não fugiu e pagou o preço – foram 580 dias na prisão. Assim como é verdade que as palavras não pertencem para sempre a quem as pronuncia. Uma vez lançadas ao mundo, ganham vida própria. Atravessam anos, mudam de direção e voltam carregadas de significados.
O bumerangue voltou, mas Malafaia parece disposto a mudar as regras para evitar que ele atinja os seus. Hoje, considera corretíssimo que Flávio Bolsonaro deixe o país para escapar do risco de prisão. Se antes permanecer era prova de coragem, agora partir virou prudência.
É legítimo questionar decisões judiciais, denunciar perseguições e exigir o respeito ao devido processo legal, como fez Lula. O que não combina com a defesa de princípios é mudar o discurso conforme o sobrenome que está em jogo.
O bumerangue de Malafaia completou a volta — e trouxe de presente a contradição entre aquilo que ele pregava e aquilo que agora defende. E, em seu movimento de retorno, trouxe consigo uma exigência da qual não podemos nos desvencilhar: conhecer a história e aprender com ela.




