Folha de cheque do antigo Banco da Lavoura de Minas Gerais (morrosanto@gmail.com)
Arapiraca necessitava de uma casa bancária, que cuidasse do dinheiro dos correntistas, ofertasse crédito (principalmente agrícola), abrisse contas-corrente. O município tinha de se adequar ao progresso. No ano de 1950, eis que surge uma das mais importantes instituições bancárias do Brasil: o Banco da Lavoura de Minas Gerais, que foi instalado na praça Gabino Besouro, hoje praça Marques da Silva.
Foi uma festa!
Comerciantes locais (grandes e pequenos), fumicultores, fazendeiros, passaram a frequentar os guichês daquele banco, tanto para guardar seu dinheiro quanto para angariar empréstimo para seu mister. Era o progresso que fazia-se sentir nos dias arapiraquenses.
O banco passou a ser ponto de encontro, principalmente entre 11 e 12 horas, dos “bem de vida”.
Até do padre Epitácio Rodrigues, pároco da cidade, que quase que diariamente visitava a casa bancária. Dizia ele que fazia “simples visita de cortesia”. Além do padre, Alonso de Abreu, Geraldo Lira, Adalberto Pereira Rocha, João Antônio da Silva, Antônio Vital, Neusvaldo França (este menos vezes) eram assíduos frequentadores. Lá, encontravam os bancários José Edson de Almeida, Marcos Queiroz, Ernandi Moreira, Maria Helena. Entre eles, um gerente bonachão conhecido como Joaquim (o Moco).
Era comum o bate papo do gerente com os agricultores (atrás de financiamento) ou com os comerciantes (às terças-feiras), depois do “apurado” da segunda, o melhor dia da semana.
O Banco da Lavoura de Minas Gerais era o prolongamento das casas de seus clientes, sem dúvida.
Vou contar um fato que ocorreu em suas dependências. Vésperas da maior festa religiosa da cidade – Nossa Senhora do Bom Conselho -, o padre Epitácio Rodrigues estava, como sempre, sentado ao lado do birô do gerente Joaquim, botando “conversa fora”. Outros clientes do banco também ali estavam: lembro bem que Geraldo Lira, Alonso de Abreu, Joaquim Bezerra.
Daí, o gerente Joaquim, que como já disse, não ouvia bem, falou:
-“Olha, o padre Epitácio está solicitando ajuda para os festejos da Santa Nossa Senhora do Bom Conselho, ele quer fazer um grande leilão”.
Padre Epitácio assentiu com a cabeça.
Poucos segundos se passaram e ninguém se manifestou. Então, Alonso Abreu, com o vozeirão que lhe era peculiar, disse:
–“Padre, vou dar um bezerro para o leilão!”
Joaquim, o gerente, falou:
–“E você, Geraldo, que vai dar?”
Geraldo Lira, que usava sempre a camisa por dentro da calça, juntou as duas mãos como a subir o cinturão, ajeitou-se e disse:
–“Vou passar um cheque e contribuir também.”
Passou-se algum tempo e ele entregou ao padre Epitácio um cheque do Banco da Lavoura.
A história continua três dias após. Como sempre, Geraldo Lira chega à agência bancária, cumprimenta a todos e se dirige ao birô do gerente.
–“Bom dia, Joaquim. Tudo bem?”
O gerente responde que sim, oferece um cafezinho e começa a conversar. Dez, quinze minutos depois, lembra-se de alguma coisa, abre a gaveta do birô, tira um cheque e diz:
–“Geraldo, seu cheque voltou!”
-“Cheque, que cheque”, exclamou.
Geraldo Lira, homem que tinha uma das melhoras contas bancárias daquela agência, ficou lívido. E pensou: nunca na vida eu passai cheque sem fundos. “Que é que isto, meu Deus!
–“Calma, Geraldo, tenha calma!” Seu cheque tem fundos, dinheiro no banco não lhe falta”, disse o gerente.
-“Olha, você fez um cheque nominal a Nossa Senhora do Bom Conselho. Não pode, Geraldo, ela não tem conta aqui nesta agência nem em nenhum banco brasileiro.
Algum tempo depois, já como Banco Real, desapareceu aquela instituição bancária, ficando em seu lugar, no mesmo prédio, o Banco Brasileiro de Desconto, o BRADESCO.
*Jornalista




