Quando o calendário eleitoral abre o tempo para candidatos a cargos eletivos anunciarem o que pretendem buscar para o povo e até mesmo já antes do prazo das propagandas em época permitidas, políticos já armam uma rinha verbal para ataques à vida pessoal do adversário.
Quem disputa um pleito político/eleitoral assume, ainda que simbolicamente, o compromisso de dizer o que tem a oferecer, o que pretende fazer e de que maneira suas propostas poderão melhor a vida das pessoas.
No entanto, tudo se desenrola ao contrário. Da tribuna dos palanques, dos rádios, tvs e das redes sociais, as ofertas que seriam promessas realizáveis ao povo são substituídas por uma linguagem de ataques à vida pessoal do adversário.
O primeiro ataca e o outro se defende atacando também. Começa aí uma arena grosseira de mentiras, de provocações e de baixaria.
Os eleitores se dividem. Em uns geram risos, graças, elogios e aplausos. Noutros geram sentimento de desprezo, de repulsa e de rejeição.
Nessa grotesca arena de palavras não é raro encontrar candidatos que transformam a campanha eleitoral numa página vazia sem objetivo, sem planos mas, com o azedume da enganação.
Infelizmente muitos candidatos não sabem discutir saúde, educação, segurança, emprego, infraestrutura, saneamento, equilíbrio das contas públicas entre outras. Entram na política como aventureiros visando negociações espúrias em benefício próprio.
Como não sabem lidar com a civilidade democrática e não tendo conhecimento dos valores institucionais optam por ataques caluniosos e injuriosos aos adversários, num repique sujo de palavras chulas.
Aí estaria o ponto ideal para o eleitor refletir, conhecer o caráter do candidato com seu nível de interlocução, com seus princípios.
É preciso distinguir a crítica legítima da agressão pessoal.
A vida pública de um candidato pode e deve ser examinada quando fatos de sua trajetória tiverem relação com sua capacidade de exercer o cargo, com sua probidade ou com o interesse público.
O eleitor tem o direito de conhecer a história política daqueles que pretendem governá-lo. O que não se pode admitir é transformar a vida pessoal do adversário em instrumento negativo de campanha, quando isso serve apenas para desviar a atenção da ausência de propostas.
Não se há de negar, a título de exemplo, que o Brasil vive um momento legislativo tétrico, sem qualidade republicana e sem reverência à democracia.
Esse estado de desalento democrático nasceu das escolhas irrefletidas do eleitor votando naqueles candidatos irreverentes e mal-educados que se limitaram agredir moralmente seu concorrente por não ter proposta para o povo.
O eleitor não quer saber o que o candidato pensa do outro concorrente. Isso é irrelevante e se situa no nicho de fofocas que apequenam o candidato falador.
Candidatos com essas qualidades deveriam, antes de falarem ao público detratando o opositor, tomar um banho de vergonha num chuveiro espelhado que mostrasse sua trajetória política com a mesma sujeira de que acusam o adversário.
O eleitor precisa ser exigente. Precisa saber o peso e o valor do seu voto. O questionamento é de imensa importância.
É relativamente fácil dizer: “vou melhorar a saúde”. Difícil é explicar de onde virão os recursos, quais medidas serão adotadas, quais prioridades serão estabelecidas e quais resultados se pretendem alcançar.
É fácil prometer mais empregos. Difícil é apresentar uma política econômica capaz de estimular investimentos e oportunidades.
É fácil afirmar que determinada administração foi incompetente. Difícil é demonstrar que se possui competência para administrar melhor.
É justamente nessa diferença que se encontra a qualidade de uma campanha eleitoral.
O candidato que não apresenta propostas e concentra sua atuação na destruição da imagem do adversário transforma a eleição em uma disputa de personalidades e de caráteres, quando deveria ser uma vitrine de projetos.
E uma democracia que escolhe pessoas pela capacidade que demonstram de atacar outras pessoas termina elegendo alguém cuja principal habilidade é simplesmente mexer fossa.
Não se trata de exigir candidatos perfeitos. Nenhum ser humano é perfeito. Todos possuem defeitos, cometem erros e têm uma história pessoal.
O exercício da cidadania, entretanto, exige que se estabeleça uma relação razoável entre aquilo que é relevante para a função pública e aquilo que pertence exclusivamente à esfera privada.
Quando um candidato utiliza problemas pessoais do adversário como seu principal argumento eleitoral, o debate público empobrece. O eleitor deixa de discutir o futuro e passa a discutir o passado pessoal dos candidatos.
A emoção substitui a razão. A indignação substitui a reflexão.
E, muitas vezes, o escândalo do dia ocupa o espaço que deveria ser destinado à discussão dos problemas que permanecerão depois da eleição.
Mais grave ainda é quando os ataques pessoais servem para desviar as atenções dos eleitores.
O verdadeiro teste de um candidato não deveria ser sua capacidade de falar mal do adversário, mas sua capacidade de explicar aquilo que pretende fazer quando receber o poder.
Quem pede o voto do povo deve estar preparado para responder a perguntas básicas. Quanto custará seu programa? De onde virão os recursos? Quais serão as prioridades? Quais resultados pretende alcançar? Em quanto tempo? Quais serão os critérios para avaliar seu trabalho?
O candidato precisa entender que não se conquista legitimamente a confiança do povo apenas destruindo a imagem de quem está do outro lado
Quem tem projeto apresenta projeto. Quem tem ideias debate ideias. Quem tem preparo explica como pretende usar o cargo.
Quando faltam propostas sobram agressões e ataques pessoais.
E quando os ataques pessoais passam a ser praticamente todo o conteúdo de uma campanha, cabe ao eleitor desconfiar não apenas da agressividade do discurso, mas também do vazio que está por trás dele e das intenção e pretensão que se escondem à beira do erário.




