Por Severino Angelino – Psicanalista
Não é raro, hoje, abrir as redes e encontrar o “antes e depois” de alguma celebridade circulando como se fosse notícia de última hora. Um rosto que mudou de contorno, um lábio mais cheio, uma pele visivelmente mais esticada, tudo dissecado em comentários, comparado a fotos antigas, debatido como se fosse um enigma a ser resolvido: “ela mexeu em quê exatamente?”. A transformação estética deixou de ser um assunto privado entre a pessoa e o espelho e virou gênero de entretenimento, com direito a repercussão, opinião de estranhos e ranking informal de quem “exagerou” e quem “acertou a mão”.
Enquanto isso acontece na tela grande da fama, uma versão menor e mais silenciosa do mesmo fenômeno se instala na vida de qualquer pessoa comum: a insatisfação que nasce de se olhar demais, com frequência excessiva, através de uma lente que já corrige, suaviza e idealiza antes mesmo que a foto seja tirada. A busca por procedimentos estéticos não cirúrgicos no Brasil cresceu de forma expressiva nos últimos anos, e um dos fatores mais citados por quem estuda o fenômeno é exatamente esse: passamos a nos ver o tempo todo, em videochamadas, em stories, em selfies com filtro, e o rosto real começou a perder a disputa direta com a própria versão editada.
Esse processo tem nome na clínica: dismorfia induzida por filtro. A pessoa se acostuma tanto com a própria imagem levemente alterada, pele sem poros, contorno mais definido, olhos ligeiramente maiores, que passa a estranhar o rosto sem edição, como se ele fosse a versão errada de si mesma. O curioso é a inversão que isso provoca: não é mais o filtro que tenta imitar a realidade, é a realidade que passa a ser cobrada para se parecer com o filtro. Diante desse descompasso, o procedimento estético surge como ponte, prometendo fechar a distância entre o rosto que a pessoa vê no espelho e aquele que já se acostumou a ver na tela.
Há uma diferença importante entre buscar um procedimento por desejo genuíno de bem-estar com a própria imagem e buscar um procedimento para tentar corrigir uma distorção que nem sequer existia até a comparação constante ser instalada como hábito. No primeiro caso, existe autonomia. No segundo, existe uma pressão que se disfarça de escolha pessoal, mas que na verdade responde a um ambiente que tornou a autocomparação compulsiva e quase impossível de evitar.
O espetáculo em torno das transformações de famosos agrava esse cenário porque naturaliza a ideia de que o rosto é um projeto permanentemente em construção, sempre passível de mais um ajuste, mais uma correção, mais uma versão “melhorada” da anterior. Quando uma mudança estética vira assunto do dia, ela não fica restrita à vida de quem decidiu fazê-la, ela se transforma em parâmetro, consciente ou não, para quem está assistindo. A pergunta que fica no ar, depois de cada “antes e depois” viral, não é apenas sobre aquela pessoa específica. É sobre até onde vale a pena ir para não ficar para trás nessa corrida.
O risco psíquico aqui não é o procedimento em si, mas a lógica de insatisfação permanente que sustenta seu consumo compulsivo. Quando a meta é sempre corrigir mais um detalhe, a sensação de suficiência nunca chega, porque o problema nunca esteve, de fato, no detalhe físico, e sim na relação que a pessoa passou a ter com a própria imagem, mediada por comparações que o ambiente digital tornou constantes e, principalmente, editáveis.
Recuperar alguma trégua nessa relação não significa recusar qualquer intervenção estética, mas sim reconhecer quando o desejo de mudar vem de dentro e quando ele é apenas eco de uma tela que já decidiu, antes mesmo da pessoa se olhar, como ela deveria se parecer.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




