Em campanha, a promessa de liberdade costuma soar bonita. Mas liberdade, em uma democracia, não combina muito com o silêncio imposto aos que pensam diferente. É justamente nesse contraste que se insere a discussão que vem ganhando força em Alagoas, diante da sequência de processos contra jornalistas e veículos de comunicação movidos pela coligação Alagoas Gigante encabeçada pela candidatura de JHC ao governo do Estado.
Um vídeo da jornalista Bleine Oliveira, um dos alvos dessas ações, foi amplamente divulgado nas redes sociais. Nele, a jornalista manifesta indignação ao tomar conhecimento de um novo processo. Ainda sem ter sido oficialmente comunicada, Bleine afirmou ter descoberto a ação por meio de um colega e relatou estar emocionalmente abalada diante da situação.
O choro, explicou, não era de medo. Era de indignação.
Bleine lembrou sua convivência com pessoas que sofreram a repressão da ditadura militar e afirmou que aprendeu com elas o valor da democracia e do direito de se manifestar. Para a jornalista, o momento eleitoral não pode servir de justificativa para aquilo que considera uma tentativa de censura.
Ela também fez uma afirmação importante: disse que continuará opinando, mas que, orientada por seu advogado, terá cuidado para não utilizar expressões que possam ser consideradas ofensivas.
É evidente que quem se sente ofendido tem o direito de recorrer à Justiça. A imprensa também precisa responder quando ultrapassa os limites da informação e da crítica. Mas há uma fronteira perigosa quando jornalistas começam a escolher palavras não para traduzir com precisão os fatos, mas para evitar processos. Quando a imprensa passa a escrever sob o medo de desagradar, a verdade dos fatos perde força. A notícia deixa de ser guiada pelo que precisa ser dito e passa a ser moldada pelo que é seguro dizer. E, nesse ambiente, quem perde não é apenas o jornalista: perde a sociedade, que tem direito a uma informação livre, crítica e independente.
A questão merece atenção justamente porque não envolve apenas Bleine Oliveira. Outros jornalistas e portais também relatam ter sido alvo de ações judiciais no atual cenário eleitoral alagoano.
Na inauguração do comitê do MDB, em Maceió, o candidato Renan Filho foi questionado sobre o que classificou como perseguição à imprensa. Em resposta, defendeu que jornalistas não devem ser intimidados e afirmou que “a democracia é barulhenta”, porque pressupõe opiniões divergentes.
A frase é simples, mas encerra uma verdade essencial: democracia não é o lugar onde todos dizem a mesma coisa. É o lugar onde diferentes vozes podem se manifestar — inclusive aquelas que incomodam, contrariam e fazem críticas duras aos candidatos e aos grupos políticos.
Aqui não está em discussão o direito de qualquer cidadão, candidato ou partido recorrer à Justiça quando entender que seus direitos foram violados. O que precisa ser discutido é até que ponto o recurso sistemático aos tribunais pode produzir um efeito de intimidação sobre quem exerce o jornalismo e sobre quem acompanha o debate público.
A liberdade não pode ser seletiva. Não pode valer apenas para quem está no palanque ou para quem concorda com determinado projeto político.
Quem promete liberdade aos alagoanos precisa estar preparado para conviver também com a liberdade de quem discorda.
Porque a verdadeira prova de apreço pela democracia não está em ouvir elogios. Está em suportar a crítica.
Entre a promessa de liberdade e os processos contra a imprensa, é preciso perguntar que tipo de liberdade está sendo prometida aos alagoanos — e se nela haverá espaço para todas as vozes, inclusive as que incomodam.




