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Brasil avança no combate às desigualdades, mas concentração de renda segue como grande desafio

O Brasil avançou em 71% dos 48 indicadores de desigualdade monitorados pelo Observatório Brasileiro das Desigualdades em 2026. É uma notícia positiva e mostra que políticas de geração de emprego, redução da pobreza, segurança alimentar, educação e proteção ambiental podem produzir resultados concretos. Mas seria um erro comemorar esses avanços sem olhar para os indicadores que pioraram — principalmente aqueles que revelam problemas estruturais.

Entre os retrocessos estão o aumento da população vivendo em áreas de risco, a elevação da mortalidade materna e o crescimento da desigualdade de renda. O número de pessoas expostas a áreas de risco geológico e climático passou de 4,36 milhões para 4,67 milhões em apenas um ano. São milhares de famílias que continuam vivendo onde enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos podem transformar a vulnerabilidade social em tragédia.

Maceió é um exemplo que não pode ser ignorado. O afundamento de cinco bairros provocado pela atividade de mineração obrigou milhares de pessoas a deixar suas casas. Mas os efeitos da tragédia não ficaram restritos às áreas evacuadas. Há moradores de regiões afetadas que continuam convivendo com rachaduras em imóveis e com problemas decorrentes da desestruturação urbana.

Na saúde, a volta do crescimento da mortalidade materna também exige atenção. Depois de uma redução no período posterior à pandemia, a taxa passou de 52,2 mortes para cada 100 mil nascidos vivos, em 2023, para 55,5 em 2024. O dado reforça que políticas públicas de saúde precisam ser permanentes, especialmente para as populações mais vulneráveis.

Mas o problema mais profundo está na renda. O Brasil conseguiu melhorar indicadores de emprego e pobreza, mas a distância entre os mais ricos e os mais pobres aumentou. Isso revela que crescimento econômico, por si só, não garante redução das desigualdades.

É nesse ponto que o debate político precisa ser mais sério. Em uma economia marcada pela concentração de patrimônio, tecnologia e produtividade, não basta perguntar quanto o país cresce. É preciso discutir quem fica com os ganhos desse crescimento.

Por isso, propostas que reduzam a proteção orçamentária de áreas como saúde e educação, enfraqueçam o salário mínimo ou diminuam a proteção social precisam ser analisadas com cuidado. Responsabilidade fiscal é necessária, mas não pode significar que trabalhadores, aposentados e usuários dos serviços públicos sejam chamados a pagar uma parcela maior da conta.

Da mesma forma, as propostas dos candidatos à Presidência identificados com o campo conservador precisam ser avaliadas não apenas pelo discurso de redução do Estado, mas pelos efeitos concretos que suas medidas podem produzir sobre a maioria da população.

O relatório deixa uma mensagem clara: o Brasil está avançando, mas ainda é profundamente desigual. Reduzir a pobreza é fundamental, criar empregos é necessário e ampliar direitos é indispensável. Mas nada disso será suficiente se a riqueza continuar excessivamente concentrada.

O verdadeiro desafio brasileiro é fazer com que o crescimento econômico não beneficie apenas quem já está no topo. É transformar desenvolvimento em justiça social — e colocar a redução das desigualdades no centro das escolhas políticas do país. Qualquer proposta contrária a isso deve ser derrotada.

*Este texto reflete a visão pessoal da autora

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