É enganoso achar que os partidos políticos são meras siglas de identidade dos candidatos para eleições.
Em uma democracia os partidos políticos representam o pensamento no conjunto de ideias, princípios e valores segundo orientação do seu próprio Estatuto. Os Estatutos dos Partidos Políticos definem sua orientação ideológica, seja progressista, social-democrática, socialista, liberal, conservadora ou de outra natureza.
Ora, o político que postula cargos eletivos em eleições presume-se que seu ideal é eleger-se para fazer cumprir a orientação do partido a que é filiado.
É notório que a filiação partidária carrega um item intrinsecamente pessoal, aquele gerado por uma visão social que representa o eu interior do filiando, conduzida pelo Estatuto que é Lei a regrar o partido que orienta.
Nesse palanque eleitoral surgem candidatos que constroem sua caminhada política acostada em partido de orientação de tal e de repente, desfilia-se do partido de origem e filia-se a partido qual, frontalmente oposto à orientação do primeiro.
A política, infelizmente, no caso em mesa, deixa de ser instrumento de defesa de ideias conjuntas que beneficiam ao povo para ser oportunismo para crescimento pessoal de certos candidatos.
Não foge ao costume. Depois de eleito o político passa a defender interesses e posições que contrariam tudo que havia prometido ao eleitorado.
Observa-se, no entanto, que a mudança de partido por si só não significa necessariamente oportunismo. Existem situações legítimas que justificam a saída de um político de determinada legenda.
O condenável e grave está quando ocorre uma mudança sistemática e conveniente às vésperas de uma eleição na hipótese de outra legenda oferecer melhores condições à candidatura, com maior estrutura eleitoral com maior possibilidade de vitória.
Nesse palco surge a interrogação. Se o político passa da esquerda para direita e da direita para esquerda de acordo com suas conveniências vantajosas, qual é finalmente sua ideologia política?
Não venham argumentar que seguir ideologia política é coisa do passado. Não. Não é coisa do passado. Tem vigência atual, pois político sem ideologia é como um papel na ventania, sem direção, sem porto de chegada.
O eleitor não pode e não deve ver candidato como “todos são iguais”. Não basta ouvir os discursos palanquetes durante a campanha.
É necessário conhecer a história do candidato, suas filiações sequenciais desde a primeira, sua coerência nos discursos.
Há políticos nos dias de hoje em que sua trajetória política percorreu mais de dez filiações diferentes. Ontem atacavam brutalmente candidatos opositores mas, hoje abraça-os em alianças bizarras.
Para esses políticos que ontem emitiam odor putrefato do outro e hoje emitem perfume de aroma qualificado merecem um reparo reflexivo do eleitor.
Está claro que quem muda de lado apenas porque entende melhores oportunidades eleitorais está demonstrando não uma evolução do pensamento mas, uma calculada e mesquinha adaptação circunstancial.
A democracia não precisa tão só de candidatos que consigam votos. Precisa de representantes que tenham convicção ideológica e por ela lutem.
Nessa quadra política temos que é preferível um adversário coerente, com ideologia definida, mesmo que das quais discordemos, a um político “selvagem” que fique pulando de galho em galho abandonando suas convicções sempre que lhe seja proporcionado vantagem pessoal/eleitoral.
Na política democrática é possível conviver com divergências, com mudanças de opinião e de mudanças partidária. Nenhum problema, nenhum reparo.
O intolerável é que os princípios sejam cuidados como meros instrumentos descartáveis e que a ideologia seja utilizada apenas como discurso para conquistar votos.
O eleitor precisa sentir orgulho de sua importância no processo eleitoral, pois é dele que depende uma representação congressual decente ou represetação por um bando de sacripantas criando leis deletérias, envergonhando e enlameando a República.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




