spot_img

Chorar sem motivo é normal, e quase sempre tem motivo

Por Severino Angelino – Psicanalista

Quase toda semana alguém se senta no consultório e começa a frase do mesmo jeito: “Doutor, eu chorei hoje e nem sei por quê.” Vem logo depois o pedido de desculpas, como se a lágrima fosse uma falha de conduta. Outros chegam mais desconfiados e perguntam se isso é depressão, se é frescura, se é coisa de gente fraca.

A primeira coisa que costumo dizer é que ninguém chora por nada. Existe choro cujo motivo ainda não chegou à consciência. A lágrima aparece na fila do mercado, ouvindo uma música no rádio, diante de uma propaganda boba de margarina. A pessoa olha em volta procurando a razão e não acha. Conclui que o choro foi desproporcional, e a conclusão está certa, mas por um motivo que ela não imagina: o que transbordou ali não era a propaganda. Era outra coisa, que vinha se acumulando fazia tempo.

Freud chamava de deslocamento esse movimento em que a emoção se desprende do seu objeto verdadeiro e se agarra a outro, mais inofensivo. É mais fácil chorar por uma cena de novela do que pelo casamento que esfriou, pelo pai que não telefona, pelo emprego que cansou. O corpo faz o trabalho que a cabeça adiou. A lágrima funciona como um aviso que chega sem remetente.

Vivemos numa época com pouca paciência para isso. Pedimos produtividade até de quem está de luto. Quem chora no trabalho se esconde no banheiro, quem chora em casa espera as crianças dormirem, e muita gente passa anos engolindo o choro até esquecer onde ele morava. Depois estranha quando ele volta em hora errada, sem convite.

Há algum tempo, atendi uma mulher que vou chamar de Marta, nome fictício, como convém. Durante dois anos ela cuidou da mãe doente sem derramar uma lágrima. Foi forte, resolveu tudo, organizou remédios, enfrentou plano de saúde. Um mês depois do enterro, chorou meia hora num balcão de atendimento quando lhe perguntaram se o documento devia sair no nome da mãe. Ninguém que passasse por ali entenderia a cena. Marta entendeu, depois de algumas sessões: aquele choro era dois anos de choro atrasado.

Isso não quer dizer que toda lágrima esconda um drama. Às vezes se chora porque se dormiu mal, porque o dia foi longo, porque o corpo está cansado e baixou a guarda. Hormônios, privação de sono, fome, excesso de estímulo, tudo mexe com o limiar do choro. Faz parte de ter um corpo. Existe uma ideia curiosa de que emoção boa é a que se explica numa frase, e a vida emocional real raramente colabora com isso.

Também é preciso dizer, com cuidado, onde fica o limite. Se o choro vem quase todos os dias, se dura muito, se vem acompanhado de perda de interesse nas coisas, de insônia, de um desânimo que não passa, de pensamentos de que a vida não vale a pena, então já não se trata só de um desabafo do corpo. Nesse caso, procurar um psicanalista, psicólogo, um psiquiatra ou o posto de saúde mais próximo é um gesto de cuidado, e não de fraqueza. Quem sente isso não precisa esperar piorar para pedir ajuda.

Fora dessas situações, a pergunta que mais ajuda talvez seja outra. Em vez de “por que estou chorando à toa?”, vale tentar “o que andei guardando?”. Nem sempre a resposta vem na hora. Às vezes aparece dias depois, no meio do banho, ou numa conversa em que a pessoa se ouve dizendo algo que não planejava dizer. A escuta funciona assim, devagar e sem atalho.

Deixar a lágrima cair sem exigir dela um certificado de legitimidade já é um bom começo. Nenhuma criança precisa justificar o choro para ser acolhida, e não sei quando a gente, ao crescer, passou a achar que precisava. Chorar sem saber por quê é um dos jeitos que a alma tem de avisar que ainda está viva e que tem assunto pendente.

Se hoje foi um desses dias, tudo bem. Respire, beba água, deixe passar. E se a lágrima insistir em voltar, talvez ela tenha mesmo algo a dizer, e vale a pena arranjar alguém que a escute com você.

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

Leia Também

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Últimas dos Blogs