Presidente afirma que Brasil não cederá a pressões de multinacionais e defende soberania tecnológica diante de uma revolução que, segundo ele, oferece oportunidades, mas também riscos
A revolução tecnológica entrou no centro do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva na Assembleia Geral da ONU. Ao abordar o avanço da inteligência artificial, o poder das grandes plataformas digitais e a transformação dos sistemas financeiros, o presidente defendeu que o desenvolvimento tecnológico não pode ocorrer sem regras, transparência e responsabilidade.
Lula classificou como uma “omissão histórica imperdoável” deixar de enfrentar o desafio da regulamentação das big techs e da inteligência artificial.
Segundo o presidente, um pequeno grupo de grandes empresários e empresas concentra poder cada vez maior sobre tecnologias que já interferem na economia, na informação e na vida cotidiana de bilhões de pessoas.
Para Lula, essa corrida tecnológica não pode acontecer “sem regras nem transparência” e muito menos à revelia das instituições internacionais.
Ao defender maior regulação, o presidente também destacou a necessidade de proteger direitos no ambiente digital. Ele afirmou que o Brasil aprovou uma legislação voltada à proteção de crianças, adolescentes e mulheres diante dos riscos provocados pelo avanço das plataformas digitais.
Pix como símbolo de soberania
Foi nesse contexto que Lula defendeu o Pix, apresentado por ele como um dos exemplos brasileiros de infraestrutura tecnológica colocada a serviço da população.
“Não vamos ceder às pressões de multinacionais que querem privatizar o nosso Pix”, afirmou.
O presidente classificou o sistema como uma infraestrutura de pagamento pública e gratuita e destacou seu papel na inclusão financeira de milhões de brasileiros.
A defesa do Pix foi apresentada como parte de uma questão mais ampla: quem controla as infraestruturas digitais estratégicas e para quem elas devem servir.
Na visão exposta por Lula, o Brasil deve participar da transformação tecnológica mundial sem entregar a empresas privadas ou estrangeiras o controle de ferramentas consideradas estratégicas para sua economia e sua população.
Proteção de quem produz
Lula também levou à ONU a discussão sobre os impactos da economia digital sobre artistas e produtores de conteúdo.
O presidente afirmou que o Brasil pretende assegurar remuneração justa para artistas, músicos e criadores de conteúdo audiovisual, diante de um mercado em que plataformas digitais passaram a ocupar posição central na distribuição e no consumo de produtos culturais.
A discussão, portanto, não se limita à tecnologia. Envolve também trabalho, renda, direitos autorais e distribuição dos ganhos produzidos pela economia digital.
Inteligência artificial sob responsabilidade humana
Ao tratar especificamente da inteligência artificial, Lula defendeu que seu desenvolvimento seja acompanhado por mecanismos de governança capazes de reduzir riscos e estabelecer responsabilidades.
O presidente citou o Painel Científico sobre Inteligência Artificial da ONU e afirmou que a corrida tecnológica precisa estar submetida a princípios éticos.
Também recorreu a uma referência religiosa para reforçar o argumento. Segundo Lula, como adverte o Papa Leão XIV, decisões sobre tecnologia não podem ser separadas da consciência e da responsabilidade.
A mensagem apresentada na ONU foi direta: a tecnologia pode transformar o mundo, mas não deve ficar acima das regras construídas pela sociedade.
Nesse cenário, o Pix aparece como um dos símbolos da posição defendida pelo presidente: inovação tecnológica, sim, mas acompanhada de soberania, regulação, inclusão e proteção de direitos.
Para Lula, o desafio não é impedir a revolução tecnológica, mas garantir que seus benefícios não fiquem concentrados nas mãos de poucos e que as novas ferramentas sejam utilizadas em benefício da sociedade.




