O ministro Gilmar Mendes elevou o tom das críticas à condução do caso Banco Master pelo ministro André Mendonça e afirmou, durante o julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF), que o tratamento dado às informações envolvendo diferentes integrantes da Corte revela possível seletividade investigativa.
Gilmar chamou atenção para um relatório de inteligência da Polícia Federal que, segundo ele, teria apresentado uma postura abertamente defensiva de Mendonça em relação ao ministro Kassio Nunes Marques. De acordo com o relato feito em plenário, o documento teria recomendado atenção a eventuais acusações da imprensa contra Nunes Marques, sob a justificativa de que poderiam fazer parte de uma estratégia para enfraquecer o próprio Mendonça.
Para Gilmar, a existência desse material levanta uma questão sobre os critérios utilizados na investigação. Enquanto centenas de páginas teriam sido produzidas de ofício para reunir referências a Alexandre de Moraes, outros elementos relacionados a ministros do Supremo, incluindo informações provenientes de dados oficiais do Coaf, não teriam recebido o mesmo impulso investigativo.
Segundo o ministro, o problema institucional não está em saber se determinado integrante do STF deve ou não ser investigado, mas em definir se o rigor da persecução penal será aplicado de maneira uniforme, independentemente da identidade do investigado.
Gilmar também questionou a cronologia da produção do relatório. Segundo ele, a Polícia Federal já havia encaminhado ao relator, em abril, um documento relacionado a vazamentos que haviam provocado suspeitas divulgadas pela imprensa desde março.
Na avaliação de Gilmar, diante das informações que já estavam disponíveis, não seria plausível sustentar que Mendonça desconhecesse quais tipos de elementos poderiam aparecer em um relatório posteriormente solicitado. O ministro afirmou que o pedido teria ocorrido quando o período eleitoral já se aproximava e sustentou que o resultado poderia atingir justamente o ministro que, segundo sua interpretação, havia sido colocado no centro da apuração.
A crítica ficou ainda mais contundente quando Gilmar afirmou existir um “inequívoco viés político-eleitoral” na condução do procedimento. Ele mencionou, entre outros elementos, a escolha das datas e a proximidade do 7 de setembro com o calendário eleitoral.
A manifestação provocou um confronto verbal no plenário. Um ministro classificou a acusação como “leviana”, enquanto a Presidência interveio para garantir que Gilmar pudesse concluir seu voto sem interrupções.
Gilmar também criticou a decisão de levantar o sigilo do relatório antes de sua apreciação pelo plenário. Segundo ele, a divulgação antecipada poderia criar um fato consumado perante a opinião pública e constranger os demais ministros a aceitar uma determinada narrativa antes da deliberação colegiada.
O ministro sustentou que esse mecanismo poderia pressionar integrantes da Corte a evitar posições divergentes, especialmente diante da possibilidade de exposição de dados obtidos em buscas e apreensões.
“Separem o Supremo das eleições”
Em um dos momentos mais contundentes de sua manifestação, Gilmar defendeu que o Supremo seja mantido distante da disputa eleitoral.
O ministro afirmou que o STF deve seguir sua função constitucional e que as eleições devem seguir seu próprio curso, sem que o Tribunal seja arrastado para a disputa política.Para Gilmar, a tentativa de vincular o Supremo ao ambiente eleitoral pode comprometer a própria instituição e transformar decisões judiciais em instrumentos de pressão política.
A crítica ganha peso porque o julgamento ocorre em pleno ciclo eleitoral e envolve um ministro cuja eventual investigação poderia produzir forte repercussão política. A imprensa também tem registrado que a crise entre Moraes e Mendonça ocorre em meio à crescente polarização eleitoral de 2026.
Gilmar sustentou, portanto, que a Corte precisa preservar sua autonomia institucional e impedir que o calendário eleitoral determine a forma como processos envolvendo seus próprios ministros são conduzidos.
Vazamentos entram no centro do debate
A discussão também alcançou os sucessivos vazamentos de informações relacionadas ao caso Master.
Gilmar questionou quem estaria fornecendo os dados à imprensa e levantou a possibilidade de que as informações partissem da Polícia Federal, do gabinete de Mendonça ou da própria estrutura administrativa do Supremo.
Durante o debate, foi esclarecido que os vazamentos já conhecidos teriam provocado determinações para abertura de inquéritos, conduzidos pela própria Polícia Federal.
Para Gilmar, contudo, a existência de investigações sobre vazamentos não resolve o problema central: a deliberação do plenário, em uma questão de tamanha gravidade, não deveria ser condicionada por informações previamente lançadas no espaço público.
A manifestação de Gilmar se soma às críticas que vêm sendo feitas dentro do próprio STF à condução do caso. O ministro já havia defendido o acesso integral aos dados do celular de Daniel Vorcaro, argumentando que os ministros precisavam conhecer o conteúdo completo antes de avaliar os recortes apresentados no relatório.
O embate revela que, além da eventual investigação de Alexandre de Moraes, o plenário está discutindo os próprios limites da atuação de um relator, o acesso dos ministros às provas e o risco de que informações policiais sejam utilizadas para produzir pressão pública antes da decisão colegiada.
Para Gilmar Mendes, a questão central é justamente essa: o Supremo não pode permitir que a identidade do investigado, o momento político ou a pressão eleitoral determinem o rigor aplicado na investigação.




