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De Alagoas para o Brasil: programa de permanência escolar pode gerar R$ 184,6 bilhões

Uma política criada em Alagoas antes de ganhar dimensão nacional começa a revelar um potencial econômico muito maior do que o inicialmente imaginado. O programa Pé-de-Meia, lançado pelo Governo Federal para estimular a permanência de jovens de baixa renda no ensino médio, pode gerar R$ 184,6 bilhões em benefícios econômicos e sociais ao Brasil ao longo da vida dos estudantes, segundo estudo do Núcleo de Estudos Raciais do Insper.

A projeção corresponde a aproximadamente 15 vezes o custo anual do programa federal, estimado em R$ 12 bilhões. O cálculo considera os ganhos proporcionados pela conclusão adicional do ensino médio, como maior renda ao longo da vida, aumento da produtividade e efeitos positivos sobre indicadores sociais.

A história dessa política, porém, começou antes em Alagoas.

Em dezembro de 2021, durante o governo de Renan Filho, o Estado lançou o Cartão Escola 10, programa voltado à permanência de estudantes da rede estadual, incluindo alunos do ensino regular e da Educação de Jovens e Adultos (EJA). A iniciativa foi idealizada por Rafael Brito, então secretário de Estado da Educação e atualmente deputado federal.

O modelo alagoano estabeleceu o pagamento de uma bolsa mensal condicionada à frequência mínima de 90% e criou ainda uma bolsa de conclusão para estudantes que terminam o ensino médio ou a EJA. A proposta combinava incentivo financeiro, combate ao abandono escolar e apoio às famílias em situação de vulnerabilidade.

Três anos depois, em 2024, o Governo Federal lançou o Pé-de-Meia, com mecanismo semelhante de incentivo financeiro à permanência e à conclusão dos estudos.

Ao comentar a repercussão nacional da política e os resultados recentes da educação, Rafael Brito destacou o pioneirismo de Alagoas.

“Nunca imaginei que um programa criado em Alagoas, em 2021, pudesse provocar tamanha revolução no Brasil”, afirmou o deputado.

Brito também defendeu que o Estado avance para uma nova etapa de incentivos educacionais, desta vez vinculados ao desempenho dos estudantes.

“Em Alagoas, a cada ano os recordes são batidos na educação. Agora é hora de criarmos uma nova bolsa, ligada ao resultado e à proficiência em Português e Matemática, para seguirmos fazendo história”, disse.

372 mil conclusões a mais por ano

O estudo do Insper estima que o Pé-de-Meia esteja associado a aproximadamente 372 mil conclusões adicionais do ensino médio por ano.

Para chegar a esse número, os pesquisadores Daniel Duque e Michael França cruzaram o efeito estimado do programa sobre a permanência escolar com o universo de jovens de baixa renda potencialmente alcançados pela política e com a probabilidade de esses estudantes avançarem até a conclusão dos estudos.

A análise considera aproximadamente 15,87 milhões de jovens entre 15 e 24 anos inscritos no Cadastro Único (CadÚnico).

Dentro desse grupo, a projeção aponta cerca de 145,6 mil conclusões adicionais entre jovens de 15 a 19 anos e outras 226,1 mil entre aqueles de 20 a 24 anos.

O estudo ainda será submetido à revisão por pares.

O valor de uma conclusão

Para calcular o impacto econômico, os pesquisadores utilizaram como referência um estudo de 2021, de Ricardo Paes de Barros e outros autores, que estimou as perdas provocadas pela não conclusão do ensino médio.

A metodologia considera que quem completa a educação básica tende a obter maior remuneração ao longo da vida. Também entram na conta ganhos de produtividade e efeitos relacionados à longevidade, qualidade de vida e cultura de paz.

Pelos cálculos utilizados pelo Insper, cada conclusão adicional do ensino médio representa cerca de R$ 537,2 mil, em valores de 2025.

Para os jovens de 20 a 24 anos, o valor estimado é menor, R$ 470,7 mil, devido ao desconto aplicado aos estudantes que concluem a etapa de forma tardia.

Assim, as 145,6 mil conclusões estimadas entre os jovens de 15 a 19 anos representam aproximadamente R$ 78,2 bilhões. As 226,1 mil conclusões projetadas entre os jovens de 20 a 24 anos correspondem a outros R$ 106,4 bilhões.

Somados, os valores chegam aos R$ 184,6 bilhões estimados pelo estudo.

Não é dinheiro que volta imediatamente aos cofres públicos

O valor projetado não corresponde a uma arrecadação direta do governo nem a recursos que serão pagos aos estudantes. Trata-se de uma estimativa do valor presente dos ganhos econômicos e sociais que podem surgir, ao longo da vida, com o aumento do número de jovens que concluem o ensino médio.

Por isso, a comparação entre os R$ 184,6 bilhões e o custo anual de R$ 12 bilhões precisa ser interpretada com cautela.

O estudo não afirma que o governo recuperará 15 vezes o investimento todos os anos. O gasto com o programa ocorre anualmente, enquanto os benefícios econômicos associados à maior escolaridade se distribuem durante décadas.

Os pesquisadores também adotaram critérios conservadores. O cálculo não considera que todo estudante mantido na escola necessariamente chegará à conclusão do ensino médio. Foi aplicada uma taxa de progressão baseada na Pnad Contínua.

Também houve redução no valor atribuído às conclusões tardias e não foram considerados possíveis efeitos adicionais do programa, como a redução das reprovações e eventuais melhorias na aprendizagem.

Abandono escolar recua no país

Os resultados do Censo Escolar de 2025 reforçam o cenário de melhora dos indicadores educacionais. A taxa de abandono no ensino médio público caiu para 2,5%, o menor nível desde o início da série histórica do MEC, em 2007.

Em comparação com 2023, a queda foi de 34%. Na comparação com 2022, quando o índice chegou a 5,6%, a redução alcança 61,5%.

A reprovação no ensino médio também recuou, de 5,7% em 2023 para 3,2% em 2025. A distorção idade-série caiu de 24,3% em 2022 para 17,6% no ano passado.

O que o levantamento do Insper acrescenta ao debate agora é uma perspectiva de longo prazo: manter o jovem na escola e ajudá-lo a concluir o ensino médio não representa apenas um ganho educacional. Pode significar também mais renda, maior produtividade e um retorno econômico expressivo para toda a sociedade.

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