Por Severino Angelino – Psicanalista
Nesta semana, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados manteve suspensas as transmissões ao vivo do Discord no Brasil, medida tomada depois que a fiscalização identificou falhas graves na proteção de crianças e adolescentes na plataforma. A decisão veio na esteira de um episódio que chocou o país: a morte de uma adolescente de 13 anos, em Mato Grosso do Sul, ocorrida em um contexto de exposição a conteúdos de automutilação dentro de comunidades virtuais. A ANPD já sinaliza que pode autorizar a volta do recurso, desde que a empresa comprove medidas efetivas de segurança. Mas o episódio reacendeu, com força, o debate sobre o chamado ECA Digital e, no fundo, sobre uma pergunta bem mais incômoda: o que estamos deixando que a infância aprenda sozinha, em frente a uma tela?
Chama atenção o vocabulário que a própria ANPD usou: risco de “acesso, exposição, recomendação ou facilitação de contato” com conteúdos capazes de violar direitos de crianças. É um vocabulário técnico, regulatório, mas que descreve, com uma precisão quase incômoda, algo que quem trabalha com infância e adolescência já vinha percebendo havia anos, no consultório: cada vez mais crianças chegam à vida adulta tendo aprendido a lidar com a ausência do outro antes mesmo de aprender a lidar com a presença dele.
Isso pode soar contraintuitivo, eu sei. Afinal, essas crianças estão, teoricamente, mais conectadas do que qualquer geração anterior, em grupos, em chats, em lives, cercadas de contato o tempo inteiro. Mas conexão não é a mesma coisa que vínculo. O vínculo se constrói na experiência de um outro que olha, que sustenta o olhar, que responde de um jeito que não pode ser controlado, pausado ou bloqueado. A tela oferece exatamente o oposto disso: uma relação que a criança pode moldar, editar, silenciar, abandonar a qualquer momento, sem custo aparente. E é sedutor justamente por isso, porque parece resolver, de um jeito mais previsível, uma necessidade que na vida real é sempre um pouco arriscada: a de ser visto por alguém que também pode decepcionar.
O psicanalista britânico Donald Winnicott descreveu como o bebê constrói o sentido de si mesmo a partir do rosto da mãe. É ali, naquele espelho vivo, que a criança primeiro se reconhece como alguém que existe para o outro. Quando esse espelho começa a ser substituído, cedo demais, e por tempo demais, por uma tela que devolve curtidas em vez de olhar, a criança segue formando um senso de identidade, só que ancorado em audiência, não em vínculo. Aprende a perguntar “quantos me viram” antes de aprender a perguntar “quem está comigo”.
É nesse terreno que a solidão infantil se torna paradoxal: uma solidão cercada de gente. A criança pode estar em quinze grupos ao mesmo tempo e, ainda assim, não ter um único adulto ou amigo que perceba quando ela está mal. Comunidades digitais oferecem pertencimento instantâneo, sem os atritos da convivência real, e é justamente essa ausência de atrito que as torna, ao mesmo tempo, tão atraentes e tão perigosas. Sem adultos de referência dentro delas, sem os limites que só um vínculo real impõe, elas também podem virar o lugar onde manipulação, coação e incentivo a práticas de automutilação encontram uma audiência isolada, disponível e, sobretudo, sem nenhuma rede de proteção por perto, como mostrou, de forma trágica, o caso que motivou a ação da ANPD.
Não se trata de demonizar a tecnologia, nem de propor uma infância sem tela, hoje isso seria tão irreal quanto inútil. Trata-se de reconhecer que nenhuma plataforma, por melhor que seja regulada, substitui a função que só um adulto presente cumpre: a de ser um outro real, capaz de notar a mudança no olhar de uma criança antes que ela vire estatística. O ECA Digital e a atuação da ANPD são passos necessários, sem dúvida, mas legislação nenhuma toca no vínculo. Isso só se constrói em casa, na atenção que sobra depois do trabalho, na pergunta feita sem pressa sobre o que a criança viu, sentiu ou sofreu naquele grupo.
Se há um alerta comum entre o episódio do Discord e o que se repete, em escala menor, em tantas casas brasileiras, é este: quando o outro que deveria estar por perto está ausente, distraído ou substituído por uma tela, a criança não deixa de precisar de vínculo, ela só aprende a buscá-lo em qualquer lugar que a receba primeiro. E nem todo lugar que recebe primeiro cuida.
Se você ou alguém que você conhece está passando por sofrimento emocional grave, o Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente pelo telefone 188, a qualquer hora, todos os dias.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




