Em entrevista à TV Record, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez uma reflexão que vai muito além da disputa política do momento. Ao lembrar das eleições que enfrentou contra nomes como Fernando Henrique Cardoso, José Serra, Geraldo Alckmin, Mário Covas, Leonel Brizola e Ulysses Guimarães, Lula revelou sentir “saudade do tempo” em que a política brasileira era marcada por adversários que, concordando ou não com eles, carregavam uma história, uma trajetória e uma ideia de país.
“Era assim. Mas foi piorando”, resumiu.
Talvez essa seja uma das frases mais fortes da entrevista. Porque não fala apenas sobre Lula, seus adversários ou sobre a eleição de 2026. Fala sobre o tipo de política que estamos construindo.
Uma política em que a capacidade de chamar atenção vale mais do que a capacidade de governar. Em que uma frase agressiva pode ter mais alcance do que uma proposta séria. Em que milhões de seguidores parecem valer mais do que anos de experiência.
Lula foi ainda mais direto: “Tem gente que acha que pode ser candidato por causa da internet. Tem gente que acha que brincar na internet ou lacrar na internet dá a ele o direito de ser presidente da República.”
É difícil não pensar em figuras como Pablo Marçal e Renan Santos.
Não porque sejam outsiders — e ser outsider, por si só, não é um problema. A democracia precisa de renovação, de novas vozes e de pessoas capazes de romper estruturas envelhecidas.
O problema começa quando a política passa a ser tratada só como espetáculo.
Marçal transformou a própria exposição digital em uma poderosa máquina de mobilização política. A provocação, o confronto e a capacidade de produzir conteúdo permanente ajudaram a transformar audiência em capital eleitoral.
Renan Santos também se movimenta nesse ambiente em que a militância digital, o discurso de confronto e a lógica das redes assumem papel central.
Mas há uma pergunta que deveria ser feita antes de qualquer candidatura: o que existe depois da câmera? Porque um país não pode ser governado como se fosse uma conta nas redes sociais.
Uma eleição pode ser conquistada com frases de efeito. Um debate pode ser vencido com uma provocação. Um vídeo pode alcançar milhões de pessoas em poucas horas.
Mas governar é outra coisa.
Governar é decidir quando não existe uma resposta fácil. É escolher onde colocar o dinheiro público quando os recursos são insuficientes para tudo. É enfrentar uma crise, negociar, recuar quando necessário, assumir responsabilidades e, muitas vezes, tomar decisões que não produzirão aplausos nem milhões de visualizações.
É por isso que outra frase de Lula merece ser lembrada: “Ser presidente é diferente. É tomar decisões em coisas sérias.”
O Brasil precisa de novos líderes. Precisa de renovação. Mas precisa, sobretudo, de responsabilidade. Porque depois que termina a live, o celular é desligado e o algoritmo passa para o próximo assunto, os problemas continuam esperando.
A fome continua existindo. A violência continua existindo. A saúde pública continua exigindo decisões. As escolas continuam esperando investimentos. As estradas precisam ser construídas. A economia precisa ser conduzida.
E nenhuma dessas coisas se resolve com lacração.
Parece simples. Mas talvez seja justamente aquilo que estamos esquecendo.
Não precisamos voltar ao passado. E também não devemos romantizar a velha política. Aqueles grandes nomes lembrados por Lula também protagonizaram disputas duríssimas e fizeram escolhas que podem ser questionadas. Mas havia algo que não pode ser substituído por um algoritmo. Eram personagens reais da política, com trajetórias conhecidas, escolhas, acertos e erros. O eleitor podia se identificar com elas, admirá-las, rejeitá-las ou até enxergar nelas o exemplo do que não queria ser. Mas havia uma história ali — uma vida pública construída antes das câmeras.
O que temos hoje?
Infelizmente, os outsiders lacradores não são os únicos a apequenar a política. Há também aqueles que sempre estiveram no meio político — alguns nasceram nele, cresceram sob sua sombra e construíram suas carreiras dentro de suas estruturas —, mas insistem em se apresentar como novidade, como se fosse possível apagar o passado inconveniente. Já fomos governados duas vezes por esse tipo: Fernando Collor e Jair Bolsonaro. Torço, portanto, para que a política também seja memória.
Mas essa é outra discussão.
E, talvez, assunto para um novo artigo.
Lúcia Barbosa é mestra em Gestão Pública, autora do livro ‘ELEIÇÕES NO BRASIL/2010: uma análise dos manifestos em defesa da democracia’
*Este texto reflete a visão pessoal da autora




