Por Severino Angelino – Psicanalista
Há duas semanas, o ex-jogador argentino Jonatan Gómez, que passou pelo São Paulo, deu uma entrevista contando que perdeu praticamente tudo o que construiu em quinze anos de carreira para o vício em cassino online. E não foi só dinheiro, não. Foi a relação com a própria família, que ele descreveu como praticamente destruída, e foi também aquela certeza amarga de que talvez nunca mais volte a jogar futebol profissionalmente. Ele comparou a experiência a uma droga. E, clinicamente falando, ele não estava exagerando nem um pouco.
A história do Gómez chama atenção porque é pública e envolve uma cifra alta. Mas o roteiro que ele descreve, a dívida que cresce, a mentira que vira rotina, a família que só descobre quando já não há mais como esconder, se repete, hoje, em milhões de casas brasileiras que nunca vão virar manchete de jornal nenhum. Uma pesquisa divulgada neste mês, ouvindo majoritariamente mulheres em diferentes regiões do país, mostrou que a maioria delas considera que as apostas online já estão destruindo suas famílias. Entre os efeitos relatados estão brigas, agressões, perda de confiança, e um tipo de insegurança doméstica que acaba contaminando tudo: o sono, o humor, até a forma como se conversa em casa. Não por acaso, o Ministério da Saúde resolveu tratar o tema como questão de saúde pública, lançando uma campanha para orientar apostadores e familiares sobre onde buscar acolhimento gratuito pelo SUS.
Como psicanalista, tenho recebido cada vez mais esse sintoma no consultório. Às vezes travestido de ansiedade, às vezes de depressão, e quase sempre acompanhado de uma vergonha profunda demais para ser dita logo na primeira sessão. A pergunta que ouço com mais frequência, tanto de quem aposta quanto de quem convive com alguém que aposta é sempre parecida: como é que uma pessoa continua apostando mesmo depois de perder tudo, de mentir para quem ama, e de enxergar com clareza que está destruindo a própria vida?
A resposta começa por um reconhecimento simples, ainda que difícil de aceitar: a compulsão não obedece à lógica do cálculo. Ela obedece à lógica da repetição. Freud já notava isso lá no início do século passado, que certos comportamentos se repetem não apesar do sofrimento que causam, mas por causa dele. Como se houvesse, por trás da aposta, uma tentativa desesperada de reparar uma perda anterior, de recuperar um controle que nunca se teve de fato, de provar a si mesmo, mais uma vez, que desta vez vai ser diferente. A aposta seguinte quase nunca é sobre o dinheiro perdido na anterior. É sobre uma ferida bem mais antiga, que o dinheiro promete curar e nunca cura.
Existe também um mecanismo de negação que sustenta esse ciclo, e vale a pena parar um pouco nele. Não é a negação ingênua de quem desconhece os riscos, é uma negação ativa, que convive tranquilamente com o conhecimento do problema. A pessoa sabe que está endividada. Sabe que mentiu ontem e vai ter que mentir de novo hoje. Mesmo assim, uma parte dela segue operando como se nada daquilo fosse real, como se a próxima rodada pudesse apagar retroativamente todo o estrago. É essa cisão entre o que se sabe e o que se sente que permite alguém apostar o aluguel, o décimo terceiro, bolsa família, o dinheiro do filho, sem que aquilo, no instante do clique, pareça loucura.
A mentira contada para a família cumpre uma função tão psíquica quanto prática. Ela não protege só o outro da verdade, protege, sobretudo, quem mente, de ter que encarar em tempo real o tamanho da própria destruição. Cada mentira também é uma tentativa de manter viva a fantasia de que ainda dá tempo de consertar tudo sozinho, sem pedir ajuda, sem confessar a falha. E é exatamente aí que mora um dos aspectos mais cruéis do vício em apostas: ele isola justamente quem mais precisaria de rede de apoio. A pesquisa recente sobre o impacto das bets nas famílias brasileiras mostra isso com bastante clareza, quem convive com um apostador relata sensação de insegurança, medo, e muitas vezes violência doméstica associada às perdas. A dependência de um, no fim, adoece a casa inteira.
Por isso tratar apostas compulsivas exclusivamente como questão de força de vontade é um erro, e um erro que só aumenta a culpa de quem já está exausto de tentar parar sozinho. A boa notícia é que existe, hoje, uma porta de entrada gratuita para esse cuidado: o SUS oferece atendimento tanto para quem aposta quanto para os familiares atingidos, através das Unidades Básicas de Saúde e dos Centros de Atenção Psicossocial, além de um autoteste disponível no aplicativo Meu SUS Digital para avaliar o nível de risco.
Nenhuma campanha, sozinha, interrompe uma compulsão. Mas ela pode fazer algo decisivo: tirar o problema do armário da vergonha e devolvê-lo ao lugar em que ele sempre deveria ter estado, o da saúde mental, que se trata, e não o da moral, que só sabe punir. Antes de julgar quem aposta, talvez valha a pena perguntar o que, exatamente, essa pessoa está tentando recuperar. Quase sempre, a resposta não cabe em nenhuma tela de aposta.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




