O Vídeo produzido com inteligência artificial e divulgado por uma representação diplomática iraniana, no qual o Cristo Redentor destrói a Estátua da Liberdade, não surgiu no vácuo. A peça foi publicada em um momento de crescente tensão internacional e encontrou terreno fértil em um cenário no qual o Brasil tem sido alvo de medidas e pressões vindas dos Estados Unidos que, para muitos observadores, extrapolam os limites de uma relação equilibrada entre nações soberanas.
Nos últimos meses, o governo de Donald Trump tem adotado uma postura cada vez mais agressiva em relação ao Brasil, recorrendo a ameaças comerciais, investigações e declarações políticas que o Palácio do Planalto interpreta como tentativas de constrangimento econômico e diplomático. Independentemente da posição ideológica de cada lado, é difícil negar que o tratamento dispensado ao Brasil tem sido, no mínimo, questionável.
Nesse contexto, não surpreende que atores internacionais procurem explorar simbolicamente o desgaste entre Brasília e Washington. O vídeo iraniano faz exatamente isso ao transformar o Cristo Redentor em uma espécie de guerreiro contra um dos maiores símbolos dos Estados Unidos.
Mas é justamente aí que a mensagem encontra seu principal problema.
A imagem da Estátua da Liberdade não representa apenas um governo, um presidente ou uma política externa. Ela simboliza valores que transcendem administrações: liberdade individual, acolhimento de imigrantes, democracia e direitos civis. São princípios que pertencem ao povo americano muito mais do que a qualquer ocupante temporário da Casa Branca.
Do ponto de vista cristão, a escolha do Cristo Redentor como instrumento de destruição também provoca questionamentos. É verdade que os Evangelhos relatam o episódio em que Jesus expulsou os mercadores do templo, condenando a transformação da fé em instrumento de exploração e poder. Numa leitura contemporânea, muitos poderiam argumentar que as práticas de coerção econômica ou intimidação política por parte de Trump estariam próximas do alvo dessa indignação e é provável que ele fosse expulso.
No entanto, a passagem bíblica jamais foi uma celebração da destruição de nações ou de símbolos ligados à dignidade humana. O gesto de Jesus era uma crítica ao abuso de poder e à corrupção moral, não à liberdade ou aos direitos fundamentais.
Por isso, embora haja razões legítimas para questionar a postura do governo Trump em relação ao Brasil, a narrativa apresentada pelo vídeo iraniano simplifica uma realidade muito mais complexa. Confundir um governo com uma nação inteira é um erro recorrente da propaganda política. E transformar o Cristo Redentor em um símbolo de aniquilação de um ideal universal de liberdade parece contradizer tanto a mensagem cristã quanto os princípios democráticos que brasileiros e americanos, apesar de suas divergências, continuam compartilhando.
No fim das contas, a crítica a governos é legítima. A hostilidade contra valores universais, não.
*Este texto reflete a visão pessoal do autora




