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Trabalho infantil não educa — perpetua desigualdade

O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), afirmou nesta sexta-feira (1º), durante participação no podcast Inteligência Ltda., que crianças deveriam poder trabalhar no Brasil.

Durante a entrevista, Zema criticou o que classificou como uma visão difundida por setores da esquerda de que o trabalho prejudica o desenvolvimento infantil. Como exemplo, mencionou práticas nos Estados Unidos, onde, segundo ele, crianças realizam atividades como a entrega de jornais em troca de pequenas remunerações. Na avaliação do ex-governador, a proibição no Brasil acabaria “privando” crianças de aprendizado e autonomia.

Para sustentar seu argumento, Zema recorreu à própria trajetória. Ele afirmou que começou a trabalhar ainda na infância ajudando o pai, que atuava no comércio de peças automotivas. Disse que, desde os 5 anos, realizava tarefas simples, como contagem e organização de produtos, e que passou a trabalhar formalmente aos 14 anos, quando tirou a Carteira de Trabalho.

A defesa do trabalho infantil feita pelo ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema, parte de uma ideia que, à primeira vista, pode soar razoável para parte da sociedade: a de que o trabalho, desde cedo, ajudaria a formar caráter, estimular responsabilidade e aproximar crianças da realidade. Ao citar exemplos de outros países e a própria trajetória, o argumento sugere que impedir essa vivência seria limitar oportunidades.

Mas essa leitura desmorona quando confrontada com a realidade concreta de um país desigual como o Brasil.

Não se trata de discutir se o trabalho pode ou não ensinar valores — isso é praticamente consenso. O problema está em ignorar quem são as crianças que, de fato, acabam trabalhando. Não são, em sua maioria, jovens em ambientes protegidos, com apoio familiar e segurança material. São crianças inseridas em contextos de vulnerabilidade, empurradas para atividades precárias, muitas vezes informais e mal remuneradas, onde o trabalho não é escolha nem complemento educativo — é necessidade.

Ao usar a própria história como referência, Zema comete um erro recorrente no debate público: transformar uma experiência marcada por condições privilegiadas em parâmetro universal. Há uma diferença estrutural entre ajudar na empresa da família — com proteção, perspectiva e eventual herança — e vender a própria força de trabalho para contribuir com a renda doméstica. Equiparar essas situações não apenas simplifica o problema, como distorce sua dimensão social.

A defesa do trabalho infantil, nesse contexto, deixa de ser apenas uma opinião controversa e passa a ser perigosa. Porque, ao relativizar limites legais construídos para proteger a infância, abre-se espaço para a naturalização de práticas que historicamente perpetuam desigualdade, evasão escolar e ciclos de pobreza.

Não é uma discussão abstrata. É sobre quais crianças terão sua infância preservada e quais serão empurradas precocemente para o mercado. Ao ignorar esse recorte, o discurso deixa de ser apenas ingênuo — e se torna socialmente irresponsável.

Por fim, defendo que talvez o próprio exemplo usado por Zema revele uma contradição incômoda. Se o trabalho precoce fosse, por si só, garantia de formação ampla e sólida, seria razoável esperar que essa trajetória viesse acompanhada de repertório cultural consistente. No entanto, o ex-governador já protagonizou episódios que levantam dúvidas sobre isso. Em uma entrevista em Divinópolis, cidade natal da escritora Adélia Prado, ao receber um livro da autora, perguntou se ela trabalhava na rádio local — uma demonstração de desconhecimento sobre uma das figuras literárias mais relevantes de Minas Gerais.

Em outra ocasião, durante entrevista à CNN Brasil, ao ser questionado se ouvia bem, Zema respondeu: “sim, eu ovo”, erro básico que rapidamente repercutiu. Não se trata aqui de desqualificar alguém por lapsos pontuais, mas de evidenciar que a formação de um indivíduo não pode ser reduzida à experiência do trabalho — especialmente quando essa experiência ocorre em detrimento de outras dimensões fundamentais, como educação e acesso à cultura.

O que está em jogo não é a valorização do trabalho, mas a proteção da infância. E confundir essas duas coisas, sobretudo em um país profundamente desigual, não é apenas um equívoco — é um retrocesso.

*Este texto reflete a visão pessoal da autora”

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