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Suspeito de ligação com o CV recebeu medalha “imorrível, imbrochável e incomível”

A decisão dos Estados Unidos de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas amplia a pressão internacional sobre redes políticas e econômicas que, direta ou indiretamente, tenham mantido relações com pessoas investigadas por ligação com essas facções.

A medida, que entrou em vigor nesta sexta-feira (5), não se limita aos criminosos apontados como integrantes dos grupos. A legislação americana prevê sanções contra indivíduos, empresas e organizações que possam ser enquadrados como apoiadores ou facilitadores das atividades dessas organizações, além de ampliar o monitoramento financeiro e o rastreamento de operações suspeitas.

Nesse cenário, ganham relevância episódios envolvendo políticos brasileiros que celebraram a decisão de Washington, mas que viram aliados ou pessoas de seu entorno político serem posteriormente alcançados por investigações relacionadas ao crime organizado.

Um dos casos mais emblemáticos envolve o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, Rodrigo Bacellar. Em 2024, quando buscava consolidar sua candidatura ao governo fluminense, ele estreitou laços com a família Bolsonaro. O então parlamentar participou de reuniões com Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e Carlos Bolsonaro para tratar de estratégias eleitorais e recebeu uma medalha com a inscrição “imorrível, imbrochável e incomível”, slogan associado ao ex-presidente.

A proximidade política ganhou novo significado após Bacellar perder o mandato e ser preso sob suspeita de integrar uma organização criminosa e de vazar informações que teriam beneficiado o Comando Vermelho. As acusações seguem sendo investigadas pelas autoridades competentes.

O fato chama atenção porque ocorre justamente no momento em que o senador Flávio Bolsonaro comemora o enquadramento do CV como organização terrorista pelos Estados Unidos. A nova classificação tende a lançar um olhar ainda mais rigoroso sobre relações políticas que, em algum momento, cruzaram o caminho de pessoas investigadas por favorecer facções criminosas.

Ronaldo Caiado – Foto: Lula Marques/Agência Brasil

Situação semelhante envolve o governador de Goiás e pré-candidato à Presidência da República, Ronaldo Caiado. Embora tenha apoiado publicamente a decisão americana, sua gestão aparece vinculada a contratos que beneficiaram uma organização social da área da saúde que mantinha relações comerciais com empresas ligadas a Thiago Telles Batista de Souza.

Segundo investigação da Polícia Civil de São Paulo, Thiago Telles é apontado como beneficiário de um esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC. Os investigadores sustentam que a estrutura teria sido abastecida por recursos oriundos do tráfico de drogas, jogos ilegais e fraudes contra consumidores. O empresário foi alvo da Operação Falso Mercúrio, deflagrada no ano passado.

Levantamentos indicam que, entre 2020 e 2025, ao menos R$ 209 milhões foram destinados pelo governo de Goiás à organização social que mantinha negócios com empresas vinculadas ao investigado.

Embora não existam acusações de participação direta de Flávio Bolsonaro ou Ronaldo Caiado nas atividades criminosas atribuídas ao PCC ou ao CV, a experiência recente de países como México e Colômbia mostra que o enquadramento de grupos criminosos como organizações terroristas costuma ampliar o alcance das investigações financeiras e aumentar a fiscalização sobre empresários, agentes públicos, operadores políticos e parceiros comerciais que apareçam nas ramificações dos esquemas investigados.

Com PCC e Comando Vermelho oficialmente incluídos na lista de organizações terroristas dos Estados Unidos, relações políticas, contratos públicos e conexões empresariais que antes eram tratadas apenas no âmbito doméstico podem passar a atrair atenção internacional. Para figuras que pretendem disputar a Presidência da República, qualquer proximidade com personagens investigados por favorecer facções criminosas tende a se transformar em um passivo político ainda mais difícil de ignorar.

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