A Polícia Federal avalia aprofundar as investigações sobre o financiamento do filme Dark Horse, produção ligada à trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. O foco dos investigadores é um fundo sediado nos Estados Unidos que teria sido utilizado para receber recursos destinados ao longa-metragem, incluindo valores atribuídos ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A apuração pode ser inserida no contexto das investigações já existentes sobre operações financeiras envolvendo o Banco Master, mas integrantes da PF discutem a possibilidade de instaurar um inquérito específico apenas para analisar a origem, o destino e a movimentação dos recursos empregados na produção cinematográfica. O principal obstáculo enfrentado pela PF é o acesso aos dados bancários e societários do fundo, já que ele está registrado em território norte-americano.
Diante disso, autoridades brasileiras estudam alternativas de cooperação internacional para tentar obter as informações. Uma das possibilidades em análise envolve mecanismos da Interpol, especialmente o chamado alerta de difusão prateada, ferramenta usada para rastreamento e recuperação de ativos ligados a possíveis organizações criminosas espalhadas em diferentes países.
Outra hipótese considerada é o caminho diplomático tradicional, com pedidos formais de cooperação internacional enviados pelo Ministério da Justiça às autoridades dos Estados Unidos. Nos bastidores, porém, investigadores avaliam que esse procedimento poderia enfrentar dificuldades políticas, sobretudo diante de eventual necessidade de autorização do governo americano em um caso que pode atingir pessoas próximas à família Bolsonaro.
Além da suspeita envolvendo o envio de recursos ao filme, a PF tenta esclarecer se o fundo também recebeu dinheiro de outros financiadores e se parte dos valores pode ter sido utilizada para finalidades distintas da produção cinematográfica, incluindo eventual benefício político no Brasil ou no exterior.
A investigação também mira a produtora responsável pelo longa, que teria recebido verbas oriundas de emendas parlamentares federais, recursos de deputados estaduais paulistas e repasses da Prefeitura de São Paulo. Os investigadores tentam identificar se houve regularidade na destinação dessas verbas e qual foi o percurso completo do dinheiro.
Outro ponto observado pela PF é a ligação do fundo com um advogado associado ao deputado federal licenciado Eduardo Bolsonaro. Segundo investigadores, o profissional figura entre os responsáveis legais pela estrutura financeira nos Estados Unidos e já atuou na defesa do parlamentar em questões migratórias no país norte-americano.
Internamente, a corporação ainda discute se as novas diligências devem permanecer vinculadas ao inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro André Mendonça ou se haverá pedido para abertura de uma investigação autônoma.
A discussão jurídica envolve o princípio da prevenção, segundo o qual processos conexos permanecem sob responsabilidade do mesmo relator. Como o caso do fundo teria ligação direta com movimentações atribuídas ao Banco Master, existe entendimento de que a supervisão poderia continuar com André Mendonça. Por outro lado, investigadores avaliam que a investigação sobre o financiamento do filme possui elementos próprios e poderia justificar uma nova distribuição no STF ou até tramitação em primeira instância, dependendo dos nomes envolvidos.
Nos bastidores, a Polícia Federal trabalha com a hipótese de que ao menos R$ 60 milhões tenham sido movimentados para o projeto audiovisual. A corporação busca determinar se os recursos foram efetivamente utilizados apenas na produção do filme ou se houve desvio de finalidade.
Paralelamente, o Ministério Público Federal já instaurou procedimento preliminar para analisar os repasses de emendas parlamentares destinados à produtora ligada ao longa.




