spot_img

Pessoas manipuladoras: os sinais que você ignora até ser tarde demais

Por Severino Angelino – Psicanalista

Manipulação não começa com gritos ou ameaças, começa com pequenos gestos que parecem cuidado. Aprenda a reconhecer antes que doa.

Teve uma tarde, ainda no início da minha prática clínica, em que uma paciente chegou ao consultório e disse uma frase que nunca mais saiu da minha cabeça: “Eu não sei mais se sou exagerada ou se ele realmente faz isso comigo.” Ela não estava se queixando de brigas, nem de traições, nem de nada que pudesse apontar com o dedo. Ela estava se queixando de uma sensação. E foi ali que entendi, de novo, algo que já sabia em teoria, mas que a clínica insiste em me ensinar na prática: manipulação não deixa hematomas visíveis. Ela deixa dúvida.

É por isso que a manipulação é tão difícil de nomear. Quem manipula raramente grita, raramente ameaça abertamente, raramente faz algo que possa ser fotografado como prova. O que ela faz é mais sutil e, por isso mesmo, mais eficaz: ela reescreve, aos poucos, a percepção que você tem de si mesmo.

Um erro que cometemos ao pensar em manipulação é imaginar um vilão de filme, alguém frio e calculista, torcendo o bigode enquanto arma seu plano. Na vida real, a manipulação quase sempre vem embrulhada em afeto. “Eu só faço isso porque me importo com você.” “Se eu não falasse isso, quem falaria?” “Você é a única pessoa que me entende, não me abandone.” Frases assim raramente soam como controle. Soam como intimidade.

E é exatamente aí que mora o problema: para reconhecer manipulação, é preciso primeiro admitir que nem tudo que se parece com cuidado é cuidado. Essa é uma das coisas mais difíceis de aceitar em análise, porque questiona algo que gostaríamos de acreditar sobre as pessoas que amamos.

Ao longo dos anos, alguns padrões se repetem com uma regularidade que deixou de me surpreender:

A pessoa manipuladora costuma fazer você duvidar da sua própria memória. Um episódio que você viveu com clareza, dias depois, já não parece tão claro assim, porque ela insiste que não foi bem daquele jeito, que você está “inventando”, “exagerando”, “sendo dramático”.

Ela também tem talento para inverter papéis. Você começa uma conversa querendo falar sobre algo que te machucou e, sem perceber como, termina pedindo desculpas por tê-la magoado com sua mágoa.

Existe ainda um padrão de intermitência: carinho intenso seguido de frieza repentina, sem explicação. Esse vaivém não é falha de comunicação é, na maioria das vezes, estratégia. Ele mantém a outra pessoa em estado de alerta, tentando adivinhar o que fez de errado, disposta a fazer qualquer coisa para recuperar o afeto que foi retirado.

E há, por fim, o silêncio como arma. Não o silêncio de quem precisa de espaço, mas aquele usado como punição, para ensinar uma lição, para fazer o outro sentir o peso da própria existência.

Uma pergunta que ouço com frequência é: “Se é tão claro assim, por que ela não percebeu antes?” A resposta é que nada disso é claro por dentro. De fora, com a distância que a analise oferece, os padrões saltam aos olhos. De dentro da relação, o que existe é confusão, culpa e uma vontade genuína de que aquilo que parece amor seja, de fato, amor.

Manipulação prospera exatamente onde há vínculo. Não funciona com estranhos. Funciona com quem já se importa, porque é o afeto que cega. E quanto mais cedo isso é reconhecido, menos tempo se gasta se perguntando “o que eu fiz de errado” pergunta que, quase sempre, é a errada.

Não existe fórmula que resolva um vínculo manipulador em três passos, e desconfio de quem promete isso. Mas existe um começo possível: voltar a confiar na própria percepção. Escrever o que aconteceu logo depois que acontece, antes que a versão do outro reescreva a sua. Notar se, depois de certas conversas, você se sente menor do que era antes de tê-las. Perguntar-se, sem culpa, se aquilo que chamam de amor por você também parece, com alguma frequência, controle.

Reconhecer manipulação não é sobre culpar quem manipula isso, a rigor, também tem suas próprias origens, suas próprias feridas. É sobre devolver a você o direito de confiar no que sente. E esse, talvez, seja o primeiro sinal de que algo mudou: quando você para de se perguntar se está exagerando e começa a se perguntar, com mais calma, o que precisa fazer a partir de agora.

Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.

*Este texto reflete a visão pessoal do autor.

Leia Também

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Últimas dos Blogs