O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aproveitou sua participação na cúpula do G7, realizada nesta terça-feira (16) em Évian, na França, para defender uma maior atuação dos países desenvolvidos diante dos desafios globais e alertar para o enfraquecimento da cooperação internacional em áreas estratégicas.
Durante o debate sobre novas parcerias e reconstrução da solidariedade entre as nações, o chefe do Executivo brasileiro afirmou que a comunidade internacional enfrenta um cenário de múltiplas crises sem respostas coletivas efetivas. Segundo ele, a capacidade de articulação global tem diminuído justamente em um período marcado pelo aumento das desigualdades, conflitos e desafios econômicos.
Lula também abordou o avanço do crime organizado transnacional e destacou a necessidade de ampliar os mecanismos de cooperação entre os países. Ao tratar do tema, ressaltou que as ações de enfrentamento devem respeitar a autonomia dos Estados nacionais e ocorrer por meio de instrumentos institucionais de cooperação internacional.
O presidente destacou que o narcotráfico provoca impactos diretos sobre a população, compromete investimentos públicos e está ligado a outras atividades ilícitas, como lavagem de dinheiro e tráfico de armas, exigindo uma atuação coordenada das autoridades de diferentes países.
A declaração ocorre em meio às divergências entre Brasília e Washington sobre a classificação de facções criminosas brasileiras. No fim de maio, o Departamento de Estado dos Estados Unidos incluiu o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras. A medida foi anunciada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, após articulações que envolveram o senador Flávio Bolsonaro junto ao presidente Donald Trump.
O governo brasileiro, entretanto, rejeita essa classificação. A avaliação do Palácio do Planalto é que as facções atuam com finalidade econômica e criminosa, sem enquadramento nas características típicas de grupos terroristas.
Nesta quarta feira (17), Lula deve seguir para Genebra onde participará de uma reunião com Valdecy Urquiza, primeiro brasileiro a assumir o comando da Interpol. O encontro contará ainda com a presença do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ocorre em um momento de fortalecimento da estratégia brasileira de cooperação policial internacional.
A participação em Évian marca a décima presença de Lula em encontros do G7 ou do antigo G8. O presidente lembrou que esteve pela primeira vez em uma cúpula do grupo na mesma cidade francesa, em 2003, e avaliou que, ao longo das últimas duas décadas, as grandes potências não conseguiram construir soluções permanentes para problemas que afetam milhões de pessoas em diferentes regiões do planeta.
Na área econômica, Lula fez críticas às políticas adotadas por diversos países nas últimas décadas. Segundo o presidente, modelos baseados na redução do papel do Estado, na desregulamentação dos mercados e em políticas de austeridade contribuíram para ampliar a desigualdade social e alimentar crises políticas em várias democracias.
Ele também demonstrou preocupação com o crescimento de medidas protecionistas e ações unilaterais no comércio internacional, em um momento de tensões econômicas globais e disputas entre grandes potências. A fala foi interpretada por analistas como uma referência indireta à política comercial defendida pelo governo Trump, presente na reunião do G7.




