Morreu nesta sexta-feira (29), aos 104 anos, o filósofo e sociólogo francês , considerado um dos intelectuais mais influentes do século XX. Autor de cerca de 70 livros, Morin construiu uma obra marcada pela busca de conexões entre diferentes áreas do conhecimento, defendendo uma compreensão mais ampla e integrada dos fenômenos humanos, sociais e naturais.
Nascido Edgar Nahoum, em Paris, ele ganhou notoriedade ainda jovem ao participar da Resistência Francesa durante a ocupação nazista na Segunda Guerra Mundial. Em 1943, enquanto atuava em ações clandestinas contra as forças alemãs, adotou o sobrenome Morin como pseudônimo, nome que o acompanharia pelo resto da vida.
Sua militância política começou antes da guerra. Em 1938, aos 17 anos, aproximou-se de movimentos antifascistas em meio à crescente tensão na Europa provocada pela expansão territorial da Alemanha nazista. Três anos depois, filiou-se ao Partido Comunista Francês (PCF), organização da qual se afastaria mais tarde após críticas ao stalinismo.
Quando a França foi ocupada pelas tropas alemãs em 1940, Morin e sua família se mudaram para Toulouse. Na cidade, teve contato com refugiados da Guerra Civil Espanhola, experiência que reforçou suas convicções antifascistas e sua aproximação com ideias socialistas e comunistas. Judeu de origem sefardita, definiu naquele período sua prioridade política: combater o avanço do nazismo e do fascismo na Europa.
Após retornar a Paris para concluir seus estudos na Sorbonne, onde se formou em Direito, História e Geografia, mergulhou na clandestinidade e participou ativamente da Resistência. Entre seus companheiros de luta estava o futuro presidente francês François Mitterrand.
Nos meses que antecederam o desembarque aliado na Normandia, em junho de 1944, Morin intensificou sua participação em operações de sabotagem contra os ocupantes alemães. As atividades continuaram até a libertação de Paris, no mesmo ano.

Com o fim da guerra, serviu como tenente do Exército francês na ocupação da Alemanha derrotada. Em 1946, deixou a carreira militar e publicou seu primeiro livro, “O Ano Zero da Alemanha”, obra em que analisou a situação social e humana do país devastado pelo conflito.
O trabalho chamou a atenção das lideranças do Partido Comunista Francês, que o convidaram para colaborar com a revista Les Lettres Françaises. A aproximação, porém, não duraria muito. À medida que aprofundava suas reflexões sobre política e sociedade, Morin passou a questionar a influência de Josef Stálin sobre os comunistas franceses. Em 1951 foi expulso do PCF em razão de críticas ao stalinismo divulgadas em artigo publicado na imprensa francesa.
Ao longo das décadas seguintes, Morin ampliou seu campo de investigação intelectual. A partir do fim dos anos 1960, passou a dialogar intensamente com áreas como biologia, física, química e ecologia. Em 1969, foi convidado para um período de estudos no Instituto Salk, na Califórnia, por iniciativa do virologista , criador da vacina contra a poliomielite.
A experiência nos Estados Unidos foi decisiva para o desenvolvimento de sua principal contribuição teórica: o pensamento da complexidade. A partir dessa abordagem, Morin argumentava que a fragmentação do conhecimento em disciplinas isoladas dificultava a compreensão dos grandes desafios contemporâneos.
Sua obra mais conhecida, “O Método”, publicada em seis volumes entre 1981 e 2008, tornou-se referência internacional ao propor uma visão integrada da realidade. Entre seus livros voltados ao público mais amplo destaca-se “Ciência com Consciência”, lançado em 1982.

Para Morin, muitos dos impasses enfrentados pelas sociedades modernas resultavam da incapacidade de conectar diferentes formas de conhecimento. Um de seus exemplos recorrentes era a economia, que, segundo ele, frequentemente ignorava aspectos humanos e sociais ao privilegiar modelos excessivamente matemáticos.
O intelectual também se envolveu em debates políticos controversos. Em 2002, ao lado de Sami Nair e Danièle Sallenave, assinou um artigo no jornal Le Monde sobre o conflito entre israelenses e palestinos. O texto gerou processos por difamação racial e apologia ao terrorismo movidos por organizações judaicas. Embora tenham sido inicialmente condenados, os três autores acabaram absolvidos pela mais alta instância da Justiça francesa.
Nos últimos anos de vida, Morin concentrou suas reflexões nas crises ambientais e nos limites da relação entre humanidade e natureza. Crítico da ideia de que o ser humano poderia dominar completamente o mundo natural, alertava para os riscos ecológicos e civilizatórios decorrentes desse pensamento. Chegando a afirmar que a humanidade caminhava para uma espécie de “nova Idade Média planetária”.
Apesar do diagnóstico crítico, defendia que os instrumentos necessários para construir uma civilização mais humana e sustentável já existiam, desde que fossem acompanhados por uma mudança profunda na forma de pensar e compreender a realidade.
Com mais de um século de vida, Edgar Morin deixa um legado intelectual que influenciou pesquisadores, educadores e formuladores de políticas públicas em diferentes partes do mundo, consolidando-se como um dos principais pensadores da complexidade e da interdependência entre os saberes.




