Um estudo publicado nesta quinta-feira pela revista científica The Lancet acendeu um alerta global sobre o avanço dos transtornos mentais. A pesquisa estima que quase 1,2 bilhão de pessoas — cerca de 14% da população mundial — convivem atualmente com algum problema de saúde mental. O número representa quase o dobro do registrado em 1990.
O levantamento analisou dados de 200 países entre 1990 e 2023 e concluiu que os transtornos mentais se tornaram a principal causa de incapacidade no mundo, superando doenças cardiovasculares, câncer e problemas musculoesqueléticos.
Segundo os pesquisadores, a prevalência global dessas condições aumentou 24% nas últimas três décadas, mesmo após ajustes estatísticos relacionados ao envelhecimento da população. Entre os transtornos que mais cresceram estão a ansiedade, com aumento de 65%, e a depressão, que subiu 41%. Também houve crescimento significativo nos casos de transtornos alimentares e do espectro autista.
Os autores do estudo atribuem o avanço da crise de saúde mental a uma combinação de fatores, como pobreza, violência, insegurança, guerras, desastres naturais, isolamento social e os impactos prolongados da pandemia de COVID-19.
O pesquisador Damian Santomauro, do Centro de Pesquisa em Saúde Mental de Queensland, na Austrália, afirmou que os efeitos persistentes da pandemia e problemas estruturais de longo prazo ajudam a explicar o aumento dos casos.
“O enfrentamento desse desafio exigirá investimento contínuo em sistemas de saúde mental, ampliação do acesso ao atendimento e ações globais coordenadas para apoiar as populações mais vulneráveis”, alertou o cientista.
O estudo também aponta uma forte desigualdade de gênero. Mulheres apresentam índices mais elevados de ansiedade e depressão em praticamente todas as fases da vida, especialmente a partir da adolescência. Em 2023, cerca de 620 milhões de mulheres conviviam com algum transtorno mental, contra 552 milhões de homens.
Os pesquisadores destacam que fatores como violência doméstica, abuso sexual, sobrecarga de cuidados e desigualdade de gênero contribuem para esse cenário.
Entre crianças e adolescentes de até 14 anos, os transtornos mais frequentes são os do neurodesenvolvimento e comportamentais, como autismo e TDAH, mais prevalentes em meninos. Já entre jovens de 15 a 19 anos, a ansiedade e a depressão aparecem como os principais problemas.
Especialistas ouvidos pela pesquisa alertam que, embora os transtornos mentais não estejam entre as doenças que mais matam, eles provocam enorme impacto na qualidade de vida, comprometendo trabalho, relações sociais e produtividade.
Outro ponto destacado pelo estudo é a insuficiência do atendimento em saúde mental no mundo. Uma análise citada pelos pesquisadores mostra que apenas 9% das pessoas com depressão grave receberam tratamento minimamente adequado em 2021. Em 90 países, a cobertura de atendimento ficou abaixo de 5%.
Os autores concluem que o agravamento da saúde mental global não foi acompanhado por uma expansão proporcional dos serviços especializados, o que amplia o desafio para governos e sistemas de saúde pública.




