O Brasil registrou em 2025 a menor taxa de analfabetismo desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua. Dados divulgados nesta sexta-feira (19) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 4,9% da população com 15 anos ou mais não sabe ler nem escrever um bilhete simples, o equivalente a 8,4 milhões de pessoas.
O índice representa uma redução de 592 mil analfabetos em relação a 2024 e marca a primeira vez que a taxa nacional fica abaixo da barreira dos 5%. Apesar do avanço, o resultado ainda está distante da meta estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE), que previa a erradicação do analfabetismo até 2024.
A pesquisa também revela que o problema continua fortemente concentrado entre os idosos e nas regiões mais vulneráveis do país. Mais da metade dos brasileiros analfabetos vive no Nordeste, onde a taxa alcança 10,6%, mais que o dobro da média nacional. A região concentra cerca de 4,8 milhões de pessoas sem alfabetização.

Na sequência aparecem o Norte, com taxa de 5,7%, Centro-Oeste (3,3%), Sul (2,4%) e Sudeste (2,3%). Entre todas as regiões, apenas o Sudeste apresentou redução do indicador em comparação com o ano anterior.
Analfabetismo é cada vez mais um problema ligado ao envelhecimento
Os dados mostram que o analfabetismo está cada vez mais associado às gerações mais velhas. Em 2025, 58% de todos os analfabetos do país tinham 60 anos ou mais. São cerca de 4,9 milhões de idosos que não sabem ler e escrever, o equivalente a 13,8% da população nessa faixa etária.
Quando os idosos são excluídos da conta, a taxa nacional de analfabetismo despenca para 2,6% entre pessoas de 15 a 59 anos.
Segundo o analista do IBGE William Kratochwill, o cenário evidencia o impacto das políticas de expansão da escolarização ao longo das últimas décadas, mas também reforça a necessidade de programas voltados para alfabetização de adultos e idosos.
Mulheres idosas passam a apresentar taxa menor que a dos homens
Pela primeira vez desde o início da série, as mulheres com 60 anos ou mais registraram taxa de analfabetismo inferior à dos homens da mesma faixa etária.
Entre as idosas, o índice ficou em 13,7%, enquanto entre os homens alcançou 14,1%. Considerando toda a população com 15 anos ou mais, a diferença também favorece as mulheres: 4,6% delas são analfabetas, contra 5,2% dos homens.
De acordo com o IBGE, os números refletem o avanço da escolarização feminina ao longo das diferentes gerações e indicam uma gradual reversão das desigualdades educacionais que marcaram o passado brasileiro.
Desigualdade racial permanece elevada
Embora tenha havido avanços nos últimos anos, as diferenças raciais continuam expressivas.Entre os brasileiros de 15 anos ou mais, a taxa de analfabetismo é de 2,8% entre pessoas brancas e de 6,5% entre pretos e pardos.
A disparidade se torna ainda mais evidente entre os idosos. Na população com 60 anos ou mais, 20,6% dos pretos e pardos são analfabetos, percentual quase três vezes superior ao observado entre os brancos, que registram taxa de 7,3%.
Apesar disso, o IBGE destaca uma redução de 1,2 ponto percentual no analfabetismo entre idosos pretos e pardos em relação ao ano anterior.
Ensino médio avança entre pretos e pardos
Outro dado considerado histórico pela pesquisa é que, pela primeira vez, mais da metade dos pretos e pardos com 25 anos ou mais concluiu o ensino médio.
O percentual chegou a 51,3% em 2025. Entre os brancos, a proporção é de 64,9%. Embora a diferença ainda seja significativa, a distância diminuiu em comparação com 2016, quando alcançava 16,4 pontos percentuais.

Considerando toda a população brasileira com 25 anos ou mais, 57,4% já concluíram a educação básica. O percentual de pessoas que têm o ensino médio como maior nível de escolaridade também cresceu, passando de 27,1% em 2016 para 31,8% em 2025.
A média nacional de escolaridade atingiu 10,2 anos de estudo, acima dos 9,1 anos registrados em 2016. As mulheres continuam apresentando maior escolaridade média que os homens: 10,4 anos contra 10 anos. Entre brancos, a média chegou a 11,1 anos, enquanto entre pretos e pardos ficou em 9,5 anos.
Falta de vagas em creches afeta principalmente Norte e Nordeste
O levantamento também identificou dificuldades de acesso à educação infantil.
Embora a decisão dos pais ou responsáveis tenha sido o principal motivo para crianças de até 3 anos não frequentarem creches, a falta de vagas ou de unidades próximas continua sendo um obstáculo importante, sobretudo no Norte e Nordeste.
No Norte, 35,2% dos bebês de até um ano e 44,5% das crianças de 2 a 3 anos estavam fora da creche por inexistência de vagas ou de unidades na localidade. No Nordeste, os percentuais foram de 36,1% e 37,2%, respectivamente.
Ensino fundamental supera meta nacional
Entre as crianças de 6 a 14 anos, 96,1% frequentavam o ensino fundamental na etapa considerada adequada para a idade em 2025. O resultado supera a meta de 95% prevista pelo Plano Nacional de Educação.
Apesar disso, o indicador ainda não retornou aos níveis observados antes da pandemia de Covid-19. Segundo o IBGE, parte das dificuldades atuais pode estar relacionada às interrupções provocadas pelo período de ensino remoto.
Ensino médio ainda apresenta desigualdades
Entre os jovens de 15 a 17 anos, 80,6% estavam cursando ou já haviam concluído o ensino médio, percentual superior ao registrado em 2024, mas ainda abaixo da meta nacional de 85%.
As diferenças por sexo e raça permanecem evidentes. Enquanto 84% das mulheres estavam na etapa adequada, entre os homens o índice era de 77,4%. Já entre os brancos a taxa alcançou 84,9%, contra 77,8% entre pretos e pardos.
Mesmo assim, os dados mostram redução gradual dessas desigualdades ao longo da última década.
Acesso ao ensino superior continua desigual
Na faixa de 18 a 24 anos, 24,5% dos jovens frequentavam o ensino superior em 2025, avanço de 1,4 ponto percentual em relação ao ano anterior.As diferenças raciais continuam marcantes. Entre os jovens brancos, 33,4% estavam na universidade e 6,2% já haviam concluído a graduação. Entre pretos e pardos, esses percentuais eram de 18,9% e 3%, respectivamente.
A meta do Plano Nacional de Educação para o ensino superior foi alcançada apenas pela população branca, segundo a avaliação do IBGE.
Trabalho segue como principal motivo para abandono escolar
O levantamento mostra que 7,7 milhões de jovens entre 14 e 29 anos não concluíram o ensino médio. A maioria é composta por homens (59,8%) e por pessoas pretas ou pardas (72,8%).
Os maiores índices de abandono escolar foram registrados entre 16 e 18 anos, período em que muitos jovens deixam os estudos para ingressar no mercado de trabalho.

A necessidade de trabalhar foi apontada por 43% dos entrevistados como principal motivo para abandonar ou nunca frequentar a escola. Em seguida aparecem a falta de interesse pelos estudos, citada por 25,6%, e a gravidez, mencionada por 9,9%.
Entre os homens, trabalhar foi o motivo predominante, alcançando 54,2% das respostas. Entre as mulheres, além da necessidade de renda, ganharam destaque fatores ligados à maternidade e às responsabilidades domésticas. A gravidez foi citada por 24,7% delas, enquanto 8,6% atribuíram o afastamento escolar aos cuidados com a casa ou outras pessoas.
Os resultados mostram que, apesar dos avanços registrados nos indicadores educacionais, o país ainda enfrenta desafios estruturais relacionados à desigualdade social, racial e regional, além da permanência de milhões de brasileiros fora do sistema educacional ou sem acesso pleno à alfabetização.




