Aos 83 anos, Caetano Veloso segue observando o Brasil e o mundo com a mesma atenção crítica que marcou sua trajetória artística. Em entrevista ao jornal espanhol El País, o músico falou sobre envelhecimento, política, cultura, tecnologia e os desafios do país, deixando uma mensagem que sintetiza seu pensamento atual: apesar das dificuldades, o Brasil ainda tem algo importante a oferecer ao mundo.
A conversa com o jornalista Miguel Ángel Bargueño ocorreu durante a turnê “Caetano nos Festivais”, que passa pela Espanha e que o artista admite poder ser uma de suas últimas viagens internacionais de longa distância. Sem tom de despedida, mas reconhecendo as limitações impostas pela idade, Caetano afirmou que hoje precisa de mais tempo para descansar entre os compromissos e já não encara as viagens com a mesma disposição de décadas atrás.
Mesmo assim, demonstra permanecer profundamente conectado ao presente. Ao comentar o repertório dos shows, explicou que escolheu canções que dialogam com os conflitos e contradições do mundo contemporâneo. Segundo ele, músicas compostas em diferentes fases de sua carreira ganharam novos significados diante do cenário atual, que considera marcado por confusão e excessos.
Ao revisitar o Tropicalismo, movimento que ajudou a liderar no fim dos anos 1960, Caetano voltou a defender a abertura da cultura brasileira às influências estrangeiras sem abrir mão de sua identidade. Citou a importância dos The Beatles e destacou a influência das ideias de Oswald de Andrade sobre a antropofagia cultural, conceito que propõe absorver influências externas e transformá-las em algo próprio.
O cantor também demonstrou preocupação com os efeitos da revolução digital. Para ele, a velocidade das redes sociais e o enorme volume de conteúdo produzido atualmente dificultam a identificação de referências culturais duradouras. Em sua avaliação, a própria noção de grandes estrelas da cultura parece pertencer a uma época diferente.
A política ocupou espaço importante na entrevista. Preso e exilado durante a ditadura militar, Caetano afirmou sentir indignação ao ver pessoas defenderem publicamente o retorno de regimes autoritários. Ao recordar aquele período, destacou que a prisão, o confinamento e o exílio deixaram marcas profundas em sua vida e em sua visão de mundo.
Ao analisar o Brasil contemporâneo, o artista alternou momentos de preocupação e esperança. Em uma das declarações mais contundentes da entrevista, afirmou que o país lhe parece, em certos momentos, “irrecuperável”. Ainda assim, recusou-se a abandonar completamente o otimismo.”Mas, ao mesmo tempo, a sensação de que ele ainda pode dizer algo importante ao mundo, contribuir com uma presença singular, uma sensibilidade diferente, persiste”, afirmou.




