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Milei vê discurso anticorrupção ruir em meio a escândalos e queda de popularidade

A retórica contra a “casta política” e a defesa de uma moralidade rígida como eixo de governo foram fundamentais para levar Javier Milei ao poder. No entanto, quase dois anos e meio após sua posse, esse discurso enfrenta desgaste diante de uma sequência de denúncias de corrupção que atingem o presidente e integrantes de seu entorno mais próximo, aproximando sua gestão justamente da elite que ele prometeu combater.

Levantamentos de opinião indicam que, nos primeiros meses deste ano, houve deterioração significativa da imagem do governo em todo o país. Ao mesmo tempo, cresceu a preocupação popular com práticas corruptas, em meio a um cenário econômico ainda adverso, marcado por inflação persistente e perda de poder de compra dos salários.

Dados da consultoria Atlas Intel apontam uma queda expressiva na aprovação presidencial desde o fim de 2025, com recuo superior a dez pontos percentuais. A desaprovação já alcança 63%, o pior índice desde o início do mandato, enquanto a aprovação caiu para 35,5%. Entre os principais problemas apontados pelos argentinos, a corrupção aparece em primeiro lugar, seguida pelo desemprego e pelo custo de vida elevado.

Nos bastidores do governo, uma série de investigações tem ampliado a pressão política. Um dos focos é Manuel Adorni, alvo de apuração por suposto enriquecimento ilícito, diante de indícios de patrimônio incompatível com sua renda. Outro caso envolve Carlos Frugoni, que deixou o cargo após revelações sobre bens e empresas não declarados no exterior.

Também estão sob análise suspeitas relacionadas a concessões de empréstimos por bancos públicos a aliados do governo, além de investigações mais sensíveis que atingem diretamente o círculo presidencial. Entre elas, um possível esquema fraudulento ligado à criptomoeda $Libra, divulgada pelo próprio Milei, e denúncias de irregularidades na compra de medicamentos por um órgão estatal. Nesse último caso, surgem nomes como o de Diego Spagnuolo e menções à irmã do presidente, Karina Milei.

Pesquisas indicam que esses episódios já impactam a confiança no governo. Um estudo da consultoria Management & Fit mostra que quase 60% dos entrevistados afirmam que os escândalos recentes reduziram sua credibilidade no Executivo. Mesmo entre apoiadores, uma parcela significativa admite perda de confiança.

Apesar do peso das denúncias, especialistas avaliam que a economia segue sendo o fator decisivo para o futuro político do presidente. Indicadores de confiança no governo registram queda contínua, atingindo o nível mais baixo desde o início da gestão. Ainda assim, analistas destacam que eventuais sinais de recuperação econômica podem reverter parte do desgaste, dado o histórico da sociedade argentina de priorizar resultados econômicos em detrimento de escândalos políticos.

No campo da oposição, o cenário permanece fragmentado. O peronismo aparece como principal força capaz de capitalizar o descontentamento, mas ainda sem conseguir absorver plenamente os eleitores que se afastam do governo. Parte desse eleitorado migra para alternativas dispersas ou permanece indecisa.

Mesmo diante da perda de apoio, Milei mantém uma base fiel estimada em cerca de um terço do eleitorado. Após um desempenho favorável nas eleições legislativas, que chegou a indicar um caminho mais estável rumo à reeleição, o quadro atual é de incerteza, com a combinação de crise econômica e denúncias colocando em xeque o futuro político do governo.

As informações são do jornal El País.

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