-Manoel, vamos comemorar! Eu, em 26 de janeiro; você, em 26 de dezembro. Estamos chegando aos 80 anos.
Quem me ligou foi Manoel Dias, diácono da igreja católica, aposentado como eu no Poder Legislativo Estadual. No seu pequeno diálogo por telefone, ele demonstrava uma alegria só. Parecia estar em êxtase.
-Vamos nos reunir: eu, você, nossas famílias e amigos!
Aquiesci.
A alegria do diácono me fez refletir. Minha mãe saiu desta vida para outro plano quando ainda tinha 52 anos: foi um sofrimento só. Meu pai, não resistindo a ausência da esposa, também sucumbiu com 59 anos. A perda da mulher amada foi tanta que se entregou seis meses após.
A diabete levou uma irmã no auge dos seus 34 anos. Não conseguiu resistir à terrível doença. As complicações da covid foram implacáveis com uma outra irmã (esposa, mãe, avó e bisavó). Tinha 69 anos.
Nesta reflexão, estou chegando aos 80 anos.
É bom? É ruim?
A quantidade de anos, mesmo com toda a cardiopatia, me faz indagar o porquê de tanto tempo. Desígnio? Por que eu, se não fiz por merecer?
Um amigo, quando me encontra, sempre diz:
-Vaso ruim não se quebra!
Brincadeira? Inveja?
Ele é mais novo que eu, nos seus quase 70 anos.
Iniciei os estudos cedo, lá na Escola 7 de Setembro, no Mocambo (Feira Grande); os terceiro e quarto anos do primário no Instituto São Luís, de Arapiraca, onde também conclui o antigo ginásio no GNSBC, dirigido por Moacir Teófilo. O antigo curso científico foi estudado no Colégio Estadual da Bahia, Central. Inquieto, fiz jornalismo na UFBa, Estudos Sociais (na Faculdade de Formação de Professores de 1º Grau de Arapiraca) e Direito, no CESMAC, em Maceió.
Hoje, depois de ter frequentado inúmeras salas de aula, estou ciente que nada sei. Esta certeza veio depois que o meu amigo também oitentão, no Café da Praça, lugar preferido de reuniões aleatórias, afirmasse:
-Você, que foi professor, nada sabe de História!
A raiva que tive no momento daquela exclamação sincera, que me pareceu estúpida, hoje se apresenta como assertiva à minha vida.
Ainda há tempo para aprender? Sinceramente, não sei.
Que os poucos dias que faltam para os oitenta anos consigam trazer conhecimento que não consegui juntar em toda a vida até aqui.Ainda há tempo.
*Jornalista
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




