A relação de JHC com a imprensa e sua indisposição para enfrentar o contraditório entraram definitivamente no debate eleitoral em Alagoas. Em entrevista a TV Gazeta, o candidato ao Governo do Estado Renan Filho (MDB) acusou o adversário de transformar as redes sociais em uma espécie de “cercadinho” político, ao mesmo tempo em que evita espaços nos quais não controla as perguntas e recorre à Justiça para contestar críticas e publicações.
“Ele só fala na proteção do cercadinho, que é a rede social. É como se ele tivesse se transformado em um avatar. Na vida real, ele fica em casa e só participa da vida das pessoas por meio de um Instagram”, afirmou Renan.
A crítica encontra eco em episódios recentes da campanha. JHC não participou de uma entrevista previamente agendada pela TV Gazeta para a série com os candidatos ao Governo de Alagoas. Também deixou de comparecer a uma sabatina promovida pelo trade turístico, espaço no qual o candidato seria questionado diretamente sobre propostas para um dos setores estratégicos da economia alagoana.
As ausências ganham significado político quando colocadas ao lado da intensa utilização da Justiça para contestar conteúdos publicados durante a campanha. Levantamento da Jovem Pan News Maceió identificou 67 processos movimentados pela Federação PSDB/Cidadania entre maio e julho, a partir da análise de decisões disponíveis no sistema da Justiça Eleitoral. As ações envolveram veículos de comunicação, jornalistas, influenciadores e outros personagens, muitas delas relacionadas a conteúdos que associavam JHC ao episódio dos investimentos do Iprev de Maceió no Banco Master.
É evidente que qualquer candidato tem o direito de recorrer à Justiça quando entende que uma informação é falsa, ofensiva ou ilegal. O problema está quando o instrumento judicial passa a ocupar o lugar do debate público. Em uma democracia, uma reportagem pode ser contestada, uma informação pode ser corrigida e até uma decisão judicial pode determinar a retirada de um conteúdo. O que não deveria acontecer é a judicialização sistemática se transformar em mecanismo de intimidação ou em substituto para respostas políticas.
É justamente nesse ponto que a acusação de Renan Filho ganha peso. O contraste entre a quantidade de ações judiciais e as ausências em espaços de entrevista e sabatina cria uma pergunta inevitável: quando o candidato é questionado, ele prefere responder ou recorrer?
Para um político que pretende governar Alagoas, a questão ultrapassa a disputa eleitoral. Governar significa conviver diariamente com perguntas difíceis, críticas, cobranças e opiniões divergentes. Não existe democracia confortável para quem está no poder — e a imprensa livre não tem a obrigação de ser confortável.
Renan Filho foi ainda mais duro ao falar sobre o assunto e classificou como “viés ditatorial” qualquer tentativa de calar a imprensa. Para ele, a liberdade de expressão é um dos pilares do regime democrático.
“A democracia é barulhenta, ela é ruidosa, ela tem diferenças e as expõe. Mas esse ruído é muito melhor do que o silêncio da ditadura”, afirmou.
A disputa ao governo de Alagoas expõe duas estratégias políticas distintas. Enquanto Renan Filho não foge a questionamentos da imprensa e dos diversos setores da sociedade, JHC constroi uma comunicação extremamente concentrada nas redes sociais, onde fala diretamente ao eleitor e define o conteúdo e o momento de suas manifestações. É uma estratégia legítima e cada vez mais comum na política contemporânea. Mas ela tem uma diferença fundamental em relação a uma entrevista ou sabatina: nas redes, o político escolhe a pergunta.
É nesse ponto que as ausências ganham relevância. Não participar de uma sabatina não é, por si só, uma violação democrática. Mas a repetição de recusas, quando combinada com uma estratégia agressiva de judicialização contra conteúdos jornalísticos, alimenta a percepção de um candidato disposto a falar quando controla o ambiente.
Renan Filho aproveitou essa brecha para apresentar sua própria proposta de relação com a imprensa. Disse que, em um eventual governo, pretende manter as portas abertas como sempre fez para jornalistas e veículos de comunicação, inclusive para críticas e opiniões divergentes.
A disputa, portanto, começa a envolver mais do que projetos para Alagoas. Também está em jogo o modelo de relação que o próximo governador pretende estabelecer com a imprensa, com a crítica e com o contraditório.




