Por Severino Angelino – Psicanalista
Há uma confusão silenciosa que atravessa quase todas as relações humanas: a ideia de que ser escolhido é a prova máxima do amor. Escolhido para o casamento, para a vaga, para o grupo de amigos, para ser levado em conta. E quando isso acontece, sentimos um alívio que confundimos com plenitude. Mas escolha e amor não são sinônimos, e entender essa diferença pode ser um dos aprendizados mais libertadores da vida adulta.
Ser escolhido ativa uma parte muito específica de nós: o ego que precisa de confirmação. É a sensação de ter vencido uma disputa, de ter sido selecionado entre outras possibilidades, de ter “ganhado” o lugar. Há prazer nisso, sem dúvida. Mas é um prazer que depende inteiramente do olhar do outro, de um critério externo que pode mudar amanhã pelos motivos mais arbitrários. Quem constrói a autoestima sobre a base de ser escolhido vive em estado permanente de prova, porque nenhuma escolha é definitiva, ela pode, a qualquer momento, ser revista.
Lembro de uma paciente que passou anos tentando entender por que, mesmo tendo sido “a escolhida” em um casamento de quase quinze anos, se sentia cada vez mais invisível dentro de casa. Ela tinha sido escolhida, sim, no altar, na aliança, no discurso público do marido sobre ter encontrado “a pessoa certa”. Mas no dia a dia, não havia escuta, não havia interesse genuíno por quem ela estava se tornando. A escolha tinha acontecido uma vez, num momento específico, e depois disso havia sido tratada como suficiente para sempre, como se amar não exigisse ser renovado. Foi só quando ela conseguiu nomear essa diferença que parou de se perguntar “o que fiz de errado” e começou a perguntar “isso aqui ainda é amor, ou só ficou sendo uma escolha antiga que ninguém atualizou?”.
Amor é outra coisa. Amor é presença sustentada, é cuidado que continua mesmo quando a excitação da conquista já passou, é alguém que permanece não porque venceu uma seleção, mas porque decide, dia após dia, continuar ali. É por isso que tantas pessoas escolhidas se sentem, ainda assim, profundamente sozinhas, foram selecionadas, mas não foram, de fato, amadas na complexidade que a palavra exige.
O inverso também é verdadeiro e talvez ainda mais doloroso de admitir: é possível ser amado por alguém e, mesmo assim, não ser escolhido por essa pessoa, porque ela não tem disponibilidade emocional, porque o momento de vida não permite, porque o medo fala mais alto que o afeto. Nesses casos, confundir a ausência de escolha com ausência de amor é um erro que aprofunda o sofrimento sem necessidade. Nem toda rejeição é um veredito sobre o quanto você vale.
O problema é que fomos educados a associar valor pessoal à capacidade de ser escolhido, nos relacionamentos, no trabalho, na família. Criança que sente que precisa se esforçar para ser a preferida cresce achando que existe uma performance certa que garante o amor. E carrega essa lógica para a vida adulta, buscando validação em quem a escolhe, em vez de buscar relações em que o amor simplesmente exista, sem precisar ser conquistado como um prêmio.
Desfazer essa confusão exige um deslocamento difícil: parar de perguntar “por que não fui escolhido” e começar a perguntar “esse era, de fato, um lugar onde eu era amado?”. Porque há escolhas vazias, que confirmam o ego, mas não nutrem, e há amores que nunca se transformaram em escolha, por razões que não cabem a você resolver sozinho.
No fim, a pergunta que realmente importa não é “fui escolhido?”. É: alguém continua me escolhendo todos os dias, ou fui escolhido uma vez e deixado de lado desde então? Porque amor que não se renova não é amor, é apenas uma escolha antiga, guardada na gaveta, que ninguém teve coragem de abrir de novo.
Severino Angelino é Psicanalista, Bel. em Direito, Escritor e Graduando em Fonoaudiologia. Autor de ‘O Abismo Invisível: Depressão’ – Um olhar sobre a depressão na adolescência e a importância do apoio familiar.
*Este texto reflete a visão pessoal do autor.




