spot_img

A epidemia da solidão

Por Severino Angelino – Psicanalista

Um paciente me contou outro dia que foi a uma festa cheia, conversou com quinze pessoas, tirou foto, riu bastante e voltou pra casa com a sensação de não ter falado com ninguém. Foi dormir sem trocar uma palavra sobre o que estava sentindo de verdade. Ninguém perguntou. E ele também não abriu essa porta.

Essa cena, com pequenas variações, eu escuto direto no consultório. E acho que resume bem uma coisa: a solidão hoje não tem mais nada a ver com estar sozinho.

A gente vive lotado. Grupo de família no WhatsApp, grupo do trabalho, agenda sem brecha, rede social cheia de gente que curtiu seu story ontem à noite. Mesmo assim, cada vez mais gente senta na minha frente e diz, com outras palavras, a mesma coisa: não tenho com quem falar de verdade.

Não é falta de gente. É falta de profundidade na gente que já está por perto.

Tem uma diferença grande entre estar acompanhado e ser visto. Pra estar acompanhado basta um corpo do seu lado. Ser visto exige outra coisa, disponibilidade emocional, sua e do outro, e é aí que a coisa emperra. A gente está cada vez menos disposto a oferecer isso, porque também está cada vez menos disposto a pedir. Numa cultura que trata autossuficiência como troféu e cansaço como fraqueza, admitir “eu preciso de alguém” quase virou vergonha.

Então ninguém diz. Disfarça.

Na clínica a solidão quase nunca chega com esse nome. Vem como cansaço sem motivo. Como irritação à toa. Como aquela vontade súbita de cancelar tudo da semana e sumir um pouco. Raramente alguém chega falando “estou solitário”, o que eu escuto é “estou exausto de gente”, que no fundo é a mesma frase, só que do avesso.

Se isso soa familiar, ou se você lembrou de alguém enquanto lia, talvez a pergunta certa não seja como conhecer mais gente. Talvez seja: quando foi a última vez que alguém soube de verdade como você estava? E quando foi a última vez que você deixou saber?

Porque a saída não é multiplicar contato. É ter coragem de ser real com pouca gente. Um vínculo de verdade pesa mais que cem interações educadas somadas. E isso não se resolve adicionando mais um nome à lista, se resolve abrindo espaço pra alguém, enfim, entrar.

Leia Também

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Últimas dos Blogs