Quarenta anos depois, o lance mais controverso da história das Copas do Mundo continua vivo na memória do futebol. Em 22 de junho de 1986, no Estádio Azteca, na Cidade do México, a Argentina derrotava a Inglaterra por 2 a 1 nas quartas de final do Mundial e via nascer um dos capítulos mais emblemáticos do esporte: a famosa “Mão de Deus”, protagonizada por Diego Maradona.
A partida carregava um peso que ultrapassava as quatro linhas. Apenas quatro anos antes, argentinos e britânicos haviam travado a Guerra das Malvinas, conflito que deixou marcas profundas na sociedade argentina. Naquele cenário, o confronto da Copa ganhou contornos simbólicos e emocionais.
Logo aos seis minutos do segundo tempo, Maradona protagonizou o lance que atravessaria gerações. Em disputa aérea com o goleiro inglês Peter Shilton, cerca de 20 centímetros mais alto, o camisa 10 desviou a bola para as redes utilizando a mão esquerda. O árbitro validou o gol, e somente depois das imagens de televisão ficou evidente a irregularidade.
Dias depois, o próprio Maradona transformaria o episódio em lenda ao declarar que o gol havia sido marcado “um pouco com a cabeça de Maradona e um pouco com a mão de Deus”, expressão que passaria a definir para sempre o lance.
Nesta segunda-feira (22), exatamente quatro décadas após aquele momento histórico, a seleção argentina volta a disputar uma partida de Copa do Mundo sediada no México. Desta vez, o adversário será a Áustria, em um torneio realizado conjuntamente por Estados Unidos, México e Canadá.Mais que um gol, um símbolo nacional
Embora outros gols marcados com a mão tenham entrado para a história do futebol — como o do angolano Vata, pelo Benfica, contra o Olympique de Marseille, em 1990, e o de Lionel Messi pelo Barcelona diante do Espanyol, em 2007 — nenhum alcançou a dimensão cultural e simbólica do lance de Maradona.
A jogada tornou-se parte da identidade argentina e foi incorporada até mesmo à música popular. Na canção “Latinoamérica”, lançada em 2010 pelo grupo porto-riquenho Calle 13, uma das referências à região menciona justamente “Maradona contra a Inglaterra marcando dois gols”.
A repercussão da jogada foi ampliada no dia seguinte à partida, quando fotografias publicadas pela imprensa deixaram claro que o gol havia sido marcado com a mão. Ainda assim, para grande parte dos argentinos, a irregularidade não diminuiu a importância da vitória.
A sombra das Malvinas
Em sua autobiografia publicada em 2000, Maradona admitiu que o confronto carregava uma carga emocional ligada à Guerra das Malvinas.
O ex-craque escreveu que, embora os jogadores afirmassem publicamente que futebol e guerra eram assuntos distintos, havia a consciência de que milhares de argentinos ainda sentiam os efeitos da derrota para o Reino Unido. Para ele, a vitória representava uma forma simbólica de recuperar algo perdido naquele conflito.
A Argentina acabaria conquistando o título mundial de 1986, com Maradona como principal protagonista da campanha.
O impacto da “Mão de Deus” também está ligado ao contexto vivido pela Argentina na década de 1980. O país atravessava os primeiros anos da redemocratização após o fim da ditadura militar, ao mesmo tempo em que enfrentava dificuldades econômicas e buscava reconstruir sua identidade nacional.
Foi nesse período que Maradona consolidou uma imagem que ultrapassava o futebol, tornando-se uma das figuras públicas mais influentes do país.
Na mesma década, a Fifa passava por profundas transformações sob a presidência do brasileiro João Havelange. O modelo de gestão implantado naquele período ampliou o alcance comercial da entidade e ajudou a transformar o futebol em um produto global.
Maradona, porém, manteve ao longo da vida uma postura crítica em relação à organização. Em diversas ocasiões, acusou a Fifa de priorizar interesses econômicos e chegou a classificar a entidade como uma “máfia do futebol”.
Um capítulo eterno da história das Copas
Passados 40 anos, a “Mão de Deus” segue como um dos episódios mais debatidos do esporte mundial. O lance divide opiniões entre aqueles que o enxergam como uma infração decisiva e os que o interpretam como um símbolo da astúcia e da personalidade de Maradona.
Independentemente da interpretação, o episódio permanece como uma das imagens mais marcantes da história das Copas do Mundo e um dos maiores símbolos da trajetória do craque argentino, que transformou um gol irregular em um dos momentos mais famosos do futebol.




