O desembargador Tutmés Airan voltou a usar suas redes sociais para comentar temas públicos e políticos. Em um vídeo recente, ele reagiu duramente à fala de um vereador de Itajaí, ligado ao Partido Liberal, que questionou a ampliação do acesso ao ensino superior no país.
O ponto de partida do magistrado foi o uso do termo “educacionismo”, empregado pelo parlamentar como crítica à política de incentivo à entrada de estudantes na universidade. Na avaliação do vereador, essa política estaria contribuindo para a escassez de trabalhadores em funções operacionais e, por consequência, prejudicando a economia.
Na leitura de Tutmés Airan, no entanto, o argumento não se sustenta. Ele classifica a crítica como “algo que beira o absurdo” e sustenta que, por trás do discurso, há uma visão que desestimula a qualificação da população. Segundo o desembargador, ao questionar o acesso amplo à educação, o que se defende, ainda que implicitamente, é a manutenção de um contingente de trabalhadores menos qualificados.
Ele afirma que, “no fundo”, a crítica aponta para o desejo de que pessoas permaneçam sem qualificação, o que facilitaria a exploração da mão de obra. “Porque quanto menos qualificação, mais exploração”, argumenta. Para ele, esse tipo de pensamento remete a um cenário anterior, no qual trabalhadores aceitavam qualquer tipo de emprego e remuneração por falta de alternativas.
O desembargador também associa esse posicionamento a uma resistência à mobilidade social. Em sua análise, limitar o acesso à educação significa, na prática, defender uma sociedade mais rígida, na qual as pessoas permanecem presas à sua condição de origem. Ele compara essa lógica a um sistema de “castas”, no qual a falta de estudo condenaria indivíduos a permanecerem no mesmo lugar ao longo da vida.
Ainda segundo Tutmés Airan, a ampliação do acesso ao ensino superior tem permitido mudanças concretas na trajetória de muitos brasileiros. Ele destaca que a qualificação abre portas e amplia perspectivas, permitindo que pessoas deixem a pobreza e alcancem melhores condições de vida.
O magistrado também faz um julgamento moral da declaração do vereador, classificando-a como expressão de “insensibilidade”. Na avaliação dele, a fala desconsidera as dificuldades enfrentadas por pessoas de origem mais humilde e o papel da educação como instrumento de transformação social. Ao final, critica o uso do termo “educacionismo”, que considera um rótulo “pomposo” para uma ideia que define como desconectada da realidade.
Dados reforçam relação entre escolaridade, renda e condições de trabalho
Um levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ajuda a contextualizar o debate levantado pelo desembargador. O estudo mostra que profissionais submetidos a jornadas mais longas, como a tradicional escala 6×1 de 44 horas semanais, concentram os menores rendimentos e enfrentam condições mais desgastantes.
Os números indicam um contraste expressivo: trabalhadores com carga de até 40 horas semanais recebem, em média, mais do que o dobro daqueles que cumprem jornadas de 44 horas. A diferença não se limita ao salário mensal — quando analisado o valor por hora, a disparidade se amplia, evidenciando um cenário em que mais tempo de trabalho não significa, necessariamente, melhor remuneração.
Segundo o levantamento, esse desequilíbrio está diretamente associado ao nível de escolaridade. Funções com menor exigência de formação formal concentram jornadas mais extensas, enquanto cargos técnicos e de nível superior tendem a oferecer cargas horárias reduzidas e melhores salários. O resultado é um ciclo que perpetua desigualdades: quem trabalha mais horas, em geral, ganha menos e tem menos acesso a oportunidades de ascensão.
O que disse o vereador

Na declaração que motivou a reação, o vereador afirmou que “estudar não deveria ser para todo mundo” e que essa ideia deveria “acender uma luz” na sociedade. Para ele, a política de incentivo ao ensino superior — que atribui à esquerda — estaria “empurrando” pessoas para dentro das universidades, especialmente instituições federais.
O parlamentar também se referiu às universidades como um “antro” e afirmou que o chamado “educacionismo” não teria sido benéfico para todos. Em sua avaliação, há indivíduos que ingressam no ensino superior sem possuir os “pré-requisitos mínimos” para se desenvolver em determinadas áreas.
Ele argumenta que, nesses casos, o resultado pode ser a frustração profissional. Segundo o vereador, uma pessoa que se torna “um administrador frustrado”, com salário comum de mercado, poderia ter melhor desempenho e reconhecimento em atividades técnicas ou manuais, como mecânica ou construção civil.
A fala expõe uma visão presente em setores da elite econômica e política que defendem a manutenção de um mercado de trabalho baseado em baixa qualificação e remuneração reduzida.




