Um amplo estudo realizado nos Estados Unidos reforçou os benefícios da vacinação contra a covid-19 para além da proteção contra formas graves da doença. De acordo com pesquisa publicada na última segunda-feira (15) na revista científica JAMA Internal Medicine, a versão mais recente da vacina foi associada a uma redução de aproximadamente 38% no risco de complicações cardiovasculares graves relacionadas à infecção pelo coronavírus.
Entre os eventos analisados estão infarto agudo do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), insuficiência cardíaca e mortes por causas cardiovasculares.
O levantamento foi conduzido por pesquisadores do Departamento de Assuntos de Veteranos dos Estados Unidos e da Universidade Washington em St. Louis. Para chegar às conclusões, os cientistas analisaram registros eletrônicos de saúde de mais de um milhão de veteranos americanos que receberam a vacina contra a gripe entre setembro e dezembro de 2024.
Desse universo, 349.085 pessoas também receberam a vacina atualizada contra a covid-19 no mesmo dia. Segundo os autores, essa estratégia permitiu reduzir o chamado “viés do vacinado saudável”, fenômeno observado quando indivíduos que se vacinam costumam apresentar hábitos de saúde mais favoráveis do que a população em geral.
A maioria dos participantes recebeu as versões 2024–2025 dos imunizantes da Moderna (65,4%) e da Pfizer-BioNTech (34,1%), enquanto uma parcela menor utilizou a vacina da Novavax (0,5%). O estudo foi financiado pelo Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA, e os pesquisadores declararam não possuir conflitos de interesse.
Idosos foram os mais beneficiadosOs participantes foram acompanhados por um período de até oito meses após a vacinação. Durante esse tempo, os cientistas monitoraram quatro desfechos cardiovasculares considerados graves: morte de origem cardiovascular, infarto, AVC e internação por insuficiência cardíaca.
Os resultados indicaram que a proteção foi particularmente expressiva entre pessoas com mais de 75 anos. Nesse grupo, houve redução de 50,7% na ocorrência desses eventos.
Nas demais faixas etárias, embora tenha sido observada uma tendência de proteção, os resultados não alcançaram significância estatística suficiente para confirmar o benefício com o mesmo grau de certeza científica. A idade média dos participantes avaliados era de 70 anos.
Benefício maior para quem tem doenças pré-existentes
A análise também mostrou que a eficácia relativa da vacina foi significativa tanto entre indivíduos com comorbidades quanto entre aqueles sem doenças prévias.
Entretanto, o impacto absoluto foi muito mais expressivo nos participantes que apresentavam condições de saúde consideradas fatores de risco, como doenças cardiovasculares, doença renal crônica, enfermidades pulmonares crônicas, diabetes e quadros de imunossupressão.
Segundo os cálculos dos pesquisadores, para cada grupo de 10 mil pessoas vacinadas, cerca de dois eventos cardiovasculares graves diretamente associados à covid-19 foram evitados em comparação com aqueles que não receberam o imunizante.
Quando os cientistas ampliaram a análise para incluir todos os eventos cardiovasculares, independentemente de confirmação laboratorial da infecção, o número subiu para aproximadamente 24 ocorrências evitadas a cada 10 mil vacinados.
Em uma projeção para uma população de um milhão de pessoas, a vacinação poderia prevenir cerca de 1.580 mortes e evitar aproximadamente 2.370 complicações cardiovasculares graves ao longo de oito meses.
Como a vacina ajuda a proteger o coração
Os autores explicam que a infecção pelo SARS-CoV-2 pode desencadear uma intensa resposta inflamatória e alterações nos mecanismos de coagulação do organismo. Esses processos favorecem lesões nos vasos sanguíneos e aumentam a formação de trombos — coágulos capazes de provocar infartos e acidentes vasculares cerebrais.
Ao reduzir a gravidade da infecção, a vacinação também diminui a ocorrência desses mecanismos que comprometem a saúde cardiovascular.
Um dos achados que mais chamou atenção dos pesquisadores foi o fato de o benefício observado sobre eventos cardiovasculares em geral ter sido muito superior ao registrado apenas nos casos oficialmente relacionados à covid-19. Para os autores, isso sugere que muitas complicações provocadas pelo coronavírus podem ocorrer em pessoas que sequer chegam a realizar testes ou obter confirmação diagnóstica da infecção.
Limitações do estudo
Apesar dos resultados considerados relevantes, os próprios pesquisadores ressaltam que as conclusões devem ser interpretadas com cautela.
Isso porque o trabalho tem caráter observacional e foi realizado exclusivamente com veteranos de guerra dos Estados Unidos — uma população predominantemente masculina, branca e de idade avançada. Essas características podem limitar a aplicação dos resultados para outros grupos populacionais.
Os autores também observam que a proteção conferida pelas vacinas atuais é menor do que aquela registrada nos primeiros anos da pandemia. Entre os fatores apontados para essa diferença estão as mudanças sofridas pelo vírus ao longo do tempo, a imunidade adquirida por infecções anteriores e a redução da realização de testes diagnósticos, o que dificulta a identificação precisa dos casos de covid-19.




