A expectativa de que a crescente presença dos Estados Unidos na Venezuela pudesse acelerar a recuperação econômica e abrir caminho para uma transição democrática começa a dar lugar à frustração e ao ceticismo entre parte da população. A avaliação foi retratada em reportagem publicada pelo jornal espanhol El País, que ouviu moradores, analistas, opositores e integrantes do cenário político venezuelano.
Segundo a publicação, o aumento da produção petrolífera impulsionado por novas licenças concedidas por Washington não tem produzido os efeitos esperados no cotidiano da população. Embora a atividade do setor energético tenha avançado, a moeda venezuelana segue em processo de desvalorização e a inflação continua pressionando o poder de compra dos cidadãos.
Nas ruas de Caracas, a percepção predominante é de que a prometida melhora econômica ainda está distante. Moradores entrevistados pelo jornal relatam que o custo de vida continua elevado e que a situação financeira das famílias permanece instável.
“Disseram que as coisas iriam melhorar, mas estão piorando a cada dia”, afirmou ao El País o encanador Roberto Tovar, morador da capital venezuelana. Já Gregoria Acosta, residente do bairro de Petare, expressou desconfiança em relação aos interesses americanos no país e criticou a ausência de resultados concretos para a população. “As coisas deveriam ter melhorado, e o dólar está pior do que nunca. Acho que esses caras querem roubar nosso petróleo”, afirmou.
A reportagem destaca que, nos últimos meses, familiares de presos políticos, sindicalistas, professores e ativistas passaram a direcionar protestos e reivindicações à embaixada dos Estados Unidos em Caracas. Entre as demandas estão melhorias salariais, maior proteção aos direitos civis e a definição de um calendário eleitoral.
Economia segue no centro das preocupações
O economista venezuelano Ricardo Hausmann, professor da Universidade Harvard, observou que o crescimento da produção de petróleo não tem se traduzido em recursos suficientes para a economia nacional. “A produção de petróleo está aumentando, mas a moeda continua a se desvalorizar a cada dia e a inflação está acelerando”. Para ele, a ausência de receitas significativas limita os efeitos positivos da expansão do setor energético. “Não está entrando muito dinheiro em Caracas.”
A posição do governo americano foi reforçada recentemente pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Em declaração reproduzida pelo El País, Rubio afirmou que a prioridade de Washington tem sido evitar um colapso institucional e promover estabilidade gradual no país.
Segundo o secretário, a estratégia americana prevê três etapas: estabilização, recuperação econômica e, posteriormente, uma transição política. Ele também indicou que os recursos provenientes da atividade petrolífera devem passar por mecanismos de auditoria antes de serem incorporados à economia venezuelana.
Presença americana gera debate sobre soberania
A atuação dos Estados Unidos em território venezuelano tem provocado discussões sobre soberania nacional. Entre os episódios citados pela reportagem estão operações de segurança envolvendo autoridades americanas e o sobrevoo de aeronaves militares dos EUA em Caracas.
A morte de Héctor Guerrero Flores, conhecido como “Niño Guerrero” e apontado como líder da organização criminosa Tren de Aragua, também alimentou questionamentos. O anúncio foi feito pelo presidente Donald Trump, mas recebeu reações de desconfiança em setores da sociedade venezuelana.
Nos bastidores políticos, segundo o El País, alguns integrantes da oposição passaram a se referir aos Estados Unidos como uma espécie de “guardião” do atual processo venezuelano. Já setores críticos denunciam que a influência de Washington estaria avançando além do campo diplomático e econômico.
Chavismo e oposição divergem sobre cenário atual
Lideranças históricas ligadas ao chavismo também manifestaram preocupação com a crescente influência externa. O ex-vice-presidente Elías Jaua defendeu maior mobilização dos simpatizantes da revolução bolivariana, enquanto grupos alinhados ao legado de Hugo Chávez denunciaram aquilo que classificam como uma tentativa de controle internacional sobre o país.
Por outro lado, parte da oposição considera a presença americana necessária para garantir estabilidade e criar condições para futuras eleições livres. Lideranças como Delsa Solórzano defendem que a cooperação com Washington integra uma estratégia de reconstrução institucional e fortalecimento democrático.
O dirigente Andrés Caleca, do Movimento pela Venezuela, avaliou que o debate sobre soberania se tornou inevitável diante do atual contexto político. Segundo ele, a crise venezuelana acumulada ao longo de quase três décadas produziu uma situação de forte dependência de atores externos.
População mantém expectativa, mas cobra resultados
Pesquisas citadas pelo El País indicam que a maior preocupação dos venezuelanos continua sendo a economia. Embora exista a percepção de que mudanças estão em curso, muitos consideram o ritmo das transformações lento e insuficiente.
O cientista político Félix Seijas, da consultoria Delphos, afirmou que a população ainda acredita que mudanças relevantes ocorrerão no futuro, mas demonstra crescente ansiedade diante da demora na obtenção de resultados concretos.“A população espera mudanças políticas, mas acima de tudo, e em primeiro lugar, melhorias na economia”, afirma Seijas.
Já o historiador Elías Pino Iturrieta fez uma avaliação mais pessimista. Em entrevista ao jornal espanhol, ele afirmou que a Venezuela permanece presa a uma situação de dependência política e econômica, sem perspectivas claras de transformação no curto prazo.
“A abertura é mínima, com aquiescência imperial: o padrasto Trump e seus enteados subservientes. A oposição hesita porque também depende de Mar-a-Lago. Não é um cenário auspicioso, e não há perspectivas de mudança em um futuro próximo, devido à fragilidade das forças sociais e ao medo da repressão”, lamenta. Para o escritor e professor, a Venezuela, longe de estar em festa, “está atolada em um pântano fétido”.




