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A sopa do Orlando

Nem sempre só os maiorais, os donos do poder, os manda-em-tudo viviam e vivem ao redor da praça onde se encontra a igreja de São Sebastião. O povo, o “João ninguém”, também costumava e ainda costuma frequentar a rua Nova ou praça Gabino Besouro, como queiram chamar a hoje praça Marques da Silva. Quando aqui relembro o termo “João ninguém” refiro-me ao José, ao João, ao Antônio, a qualquer um que labuta diariamente para conseguir seu sustento.

Esse povo, sem querer dar conotação política, anda para cima e para baixo, trabalhando como barbeiro, carpinteiro, ambulante, motorista de caminhão, carregador, sapateiro, padeiro, ou jogando, bicheiro ou jogador de baralho. Ou mesmo desocupado.

Era uma parte do povo da época. Ainda hoje faz parte deste povo.

Quero relembrar aqui o bar e restaurante do Orlando, pernambucano que chegou em Arapiraca nos anos 50; seu bar era ao lado esquerdo do Cine Trianon: um local, segundo o historiador Zezito Guedes, de terceira categoria. Havia, contudo, reconhecida por todos, uma sopa gordurosa (de restos de carne de segunda), que, segundo palavras de um religioso era “o manjar dos Deuses.”

A mãe do Siroco (um dos frequentadores) era quem preparava diariamente a sopa famosa – chamava-se Dona Antônia.

Era um suadeiro só!

Como me lembro daqueles frequentadores que, principalmente nas madrugadas dos sábados, tentavam se recuperar de noitadas boêmias: Silvio Rodrigues, Tavarinho, Melquiade, Gama, Virgílio Rodrigues, Gondim, Olegário, Enoque Leite, Né de Juca, Epitácio Barbosa.

Ou outras personagens esquecidas desta terra: Zé da Dita, Gamaleão, Caroucha, Gorila, Zuquinha Simão, Doca, Pé da Banda, Boca de Osso, Luís Turino, Pé no Freio, Luís Beiçola, Ferrugem, Zé Lunga.

Acordado, sonho com aqueles tempos; é um sonho bem leve, quase se materializando. Alguns dizem ser a memória aflorando o passado no presente. Acordado, eu sonho com o passado.

Que passado!

*Jornalista

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