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Estudo aponta possível ligação entre remédio para emagrecimento e risco de perda súbita da visão

Um estudo publicado no periódico científico British Journal of Ophthalmology levantou um alerta sobre um possível efeito colateral raro associado ao uso do Wegovy, medicamento à base de semaglutida indicado para tratamento da obesidade. Segundo os pesquisadores, o remédio pode estar relacionado a um aumento no risco de neuropatia óptica isquêmica, condição ocular capaz de provocar perda súbita parcial ou total da visão.

A neuropatia óptica isquêmica acontece quando o fluxo sanguíneo que chega ao nervo óptico é reduzido ou interrompido. Dependendo da gravidade, o problema pode comprometer permanentemente a visão de um ou dos dois olhos.

A pesquisa analisou mais de 30,6 milhões de notificações de eventos adversos registradas em bancos de dados de farmacovigilância. Deste universo, 31.774 relatos estavam relacionados a medicamentos que utilizam semaglutida. A média de idade dos pacientes era de 56 anos, sendo 54% mulheres.

Os cientistas avaliaram diferentes medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, incluindo Ozempic, Wegovy e Rybelsus. Também entraram na análise remédios à base de tirzepatida, como Mounjaro e Zepbound.

Embora o Ozempic tenha registrado o maior número absoluto de notificações, principalmente por estar no mercado há mais tempo, o Wegovy apresentou a associação estatística considerada mais forte com a neuropatia óptica isquêmica.

Foram identificados 28 relatos da condição ligados ao Wegovy e 47 relacionados ao Ozempic. Ainda assim, os pesquisadores observaram que o risco estatístico associado ao Wegovy apareceu quase 75 vezes acima do esperado, enquanto o Ozempic apresentou índice próximo de 19 vezes acima da média.

Os chamados genéricos de semaglutida também demonstraram aumento relevante no sinal de risco, com probabilidade 21 vezes maior que o esperado. Já o Rybelsus, versão oral do medicamento, não teve registros associados à condição ocular durante a análise.

O levantamento também apontou diferenças importantes entre homens e mulheres. Entre os usuários do Wegovy, os homens apresentaram o sinal estatístico mais elevado de todo o estudo, com chances 116 vezes superiores ao esperado. Entre as mulheres, o maior sinal foi observado no Ozempic.

Em uma etapa adicional da pesquisa, os autores concluíram que a possibilidade de desenvolvimento da neuropatia óptica isquêmica foi mais de três vezes maior em homens do que em mulheres.

Os pesquisadores levantam algumas hipóteses para explicar o resultado. Uma delas é que medicamentos injetáveis costumam agir de forma mais rápida do que versões orais. Além disso, o Wegovy é administrado em doses mais elevadas do que o Ozempic.

Segundo os autores, doses mais altas podem favorecer mecanismos ligados à redução do fluxo sanguíneo do nervo óptico, incluindo queda de pressão arterial, perda excessiva de líquidos e alterações no sistema nervoso autônomo.

Apesar dos achados, os cientistas ressaltam que o estudo não estabelece uma relação direta de causa e efeito entre o uso dos medicamentos e a perda de visão. Eles também destacam limitações no sistema de monitoramento de eventos adversos da FDA, agência reguladora dos Estados Unidos.

Entre os problemas apontados estão a impossibilidade de calcular a frequência real da condição e a ausência de informações detalhadas sobre o estado de saúde dos pacientes avaliados.

Os autores também admitem que a ampla cobertura da mídia sobre o Wegovy pode ter aumentado o número de notificações envolvendo o medicamento, influenciando parcialmente os resultados.

Mesmo assim, os pesquisadores afirmam que os dados representam um importante sinal de alerta sobre possíveis riscos relacionados à formulação e à dosagem da semaglutida.

“Este estudo fornece a primeira evidência de um risco de neuropatia óptica isquêmica dependente da formulação e da dose, com a associação mais forte observada para Wegovy”, concluíram os autores da pesquisa.

Os cientistas defendem que novos estudos prospectivos sejam realizados com urgência para esclarecer os riscos e auxiliar futuras decisões médicas e regulatórias.

Ao mesmo tempo, o estudo lembra que medicamentos da classe GLP-1 também vêm sendo associados a potenciais benefícios em algumas doenças oculares, como degeneração macular relacionada à idade e uveíte.

Diante dos resultados, a recomendação dos pesquisadores é de cautela. Para eles, os benefícios do tratamento contra obesidade e diabetes precisam ser avaliados individualmente diante do risco, ainda considerado raro, de complicações graves envolvendo a visão.

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