Enquanto nordestino, cresci ouvindo histórias sobre as secas que nos atingem desde sempre. Lembro que um dos primeiros quadros que tocou meu eu miúdo foi Retirantes de Portinari, senti a fome daquela família como se fosse minha. Anos depois, mais maduro, voltei à mesma sensação ao ler Vidas Secas de Graciliano e O Quinze, de Rachel de Queiroz, este último me fez querer saber mais sobre os campos de concentração espalhados por todo Ceará para impedir que os flagelados à la Portinari alcançassem Fortaleza na seca de 1932.
Traumatizado com a escassez de chuva mesmo sem experimentar o seu drama, tornei-me um daqueles tantos que sacralizam o Velho Chico, daqueles que oram pelo cair da água e o seu abençoar de nossas colheitas, internas e externas. Julguei que estava fazendo o certo.
Não estava em Alagoas nos anos de 2010, soube apenas por notícias sobre a enchente ocorrida em junho desse ano. Espantei-me com seus estragos: 270 mil pessoas afetadas; 36 mortes; 1.131 feridos; 28 mil desalojados — as contemporâneas personagens de Portinari, espalhadas pelas estradas alagoanas, portando apenas um olhar perdido.
Foi em 2010 que percebi que a chuva pode ser tão perigosa quanto a seca.
De 2010 para cá, 16 anos se passaram. As chuvas se tornaram mais intensas, interditando por dias nosso acesso às praias e causando danos cada vez maiores ano após ano após ano…
Eventualmente a chuva cessa e o sol se abre. O fluido escoa para um lugar que não sei bem onde fica e a última gota seca, permitindo a nós, que ficamos por dias ilhados em casa acompanhando — frustrados e entristecidos — a destruição provocada por ela, o acesso à praia.
Mas a última gota seca e o sol se abre. As águas da chuva correm para algum lugar e deixam de habitar as ruas da cidade, então nós voltamos a ir à praia. Creio eu que nesse percurso, elas levam consigo nossa memória de turbulentos dias e tudo volta ao normal… até o ano que vem…




