A entrevista de Waldemar Costa Neto, presidente nacional do PL, ao programa Pânico escancara mais do que uma disputa local em Alagoas — revela, com rara franqueza, a lógica pragmática que tem orientado as articulações políticas recentes: alianças cada vez mais circunstanciais, moldadas conforme os interesses do momento.
O trecho mais emblemático não é apenas o relato da intervenção no partido para enquadrar o prefeito JHC, mas o elogio direto ao senador Renan Calheiros. Ao afirmar que “Renan é um baita cara”, Waldemar quebra a lógica de antagonismo absoluto que costuma marcar a relação entre o grupo de Renan e o bolsonarismo.
O gesto tem peso político. Partindo de um dirigente ligado ao campo do ex-presidente Jair Bolsonaro, o elogio funciona como um reconhecimento explícito da força e da capacidade de gestão e articulação de Renan em Alagoas — alguém que, goste-se ou não, segue sendo peça central no tabuleiro estadual.
Ao mesmo tempo, a fala expõe uma contradição incômoda: enquanto, no plano nacional, Renan é frequentemente alvo de críticas desse mesmo campo político, nos bastidores há admiração pela sua eficiência e pelo controle que exerce sobre sua base.
A entrevista também deixa claro o peso de Arthur Lira nessa equação. A promessa de apoio feita por Bolsonaro a Lira para o Senado acabou impondo uma reconfiguração no PL de Alagoas, levando à intervenção e ao choque com JHC. É a demonstração de que acordos nacionais, muitas vezes, se sobrepõem às dinâmicas locais — ainda que isso custe desgaste político.
No fim, a fala de Waldemar tem um efeito revelador: desmonta a ideia de fronteiras ideológicas rígidas e expõe o que de fato orienta essas movimentações — compromisso político, conveniência e correlação de forças. E, nesse contexto, o elogio a Renan deixa de ser um detalhe e passa a ser um sinal claro de sua influência, que ultrapassa até mesmo os limites do campo adversário.




