spot_img

MSF acusa Israel de usar água como arma em Gaza

A organização humanitária Médicos Sem Fronteiras divulgou nesta terça-feira (28) um relatório em que acusa Israel de utilizar o acesso à água como instrumento de guerra durante o conflito na Faixa de Gaza. O documento, intitulado “Água como Arma”, descreve um cenário de colapso dos sistemas de abastecimento, saneamento e higiene no território.

De acordo com a análise da entidade, a população civil teria sido exposta a riscos generalizados por meio de três frentes principais: ataques e destruição de infraestrutura hídrica, restrições à circulação que dificultam o acesso a serviços básicos e bloqueios ou atrasos na entrada de suprimentos essenciais.

O levantamento aponta que grande parte das instalações de tratamento e distribuição de água — incluindo poços e unidades de dessalinização — foi destruída ou se tornou inacessível ao longo da guerra, iniciada após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023.

Presente na região antes mesmo do início do conflito, a MSF mantém equipes em Gaza apesar das ordens de evacuação emitidas pelas forças israelenses. Desde outubro de 2025, quando entrou em vigor o atual cessar-fogo, a organização afirma ter registrado ao menos 15 mil atendimentos por traumas físicos em dois hospitais de campanha, além de mais de 40 mil procedimentos de curativos relacionados a ferimentos causados por armas de fogo e explosões.

O relatório se baseia em dados coletados em unidades de saúde primária em Khan Yunis, no sul do território, além de informações operacionais da própria organização, como distribuição de água e registros de incidentes de segurança ao longo de 2025.

A partir de mais de mil entrevistas realizadas entre maio e agosto daquele ano, a MSF identificou um aumento significativo de doenças associadas às condições sanitárias. Cerca de 23% dos entrevistados relataram quadros recentes de enfermidades gastrointestinais, índice superior ao observado durante o período de trégua anterior. Infecções respiratórias também apareceram com frequência relevante nos domicílios analisados.

Segundo a organização, o colapso dos sistemas de esgoto contribuiu para a contaminação das águas subterrâneas, tornando impróprios para consumo muitos dos poços utilizados pela população. Banheiros improvisados e a infiltração de resíduos humanos agravam ainda mais a crise sanitária.

Antes da guerra, Gaza contava com uma estrutura considerada avançada para produção de água potável, com uso de tecnologias como osmose reversa. Com a destruição dessas instalações, a MSF relata dificuldades constantes para introduzir novos equipamentos no território.

Em um dos casos citados, a entidade conseguiu reativar um poço e instalar um sistema de tratamento capaz de atender cerca de 16 mil pessoas por dia em Rafah. Apesar de informar previamente as coordenadas às autoridades israelenses, a equipe foi obrigada a deixar o local em março de 2025. Desde então, não teve mais acesso à área, que permanece sob controle militar. Imagens de satélite analisadas posteriormente indicariam a destruição completa da estrutura.

O documento também aborda os efeitos dos deslocamentos forçados. Em agosto de 2025, o governo liderado por Binyamin Netanyahu aprovou um plano de ocupação da Cidade de Gaza, onde já se concentrava cerca de metade da população. No mês seguinte, a chamada zona humanitária reunia aproximadamente 2,1 milhões de pessoas em uma área de pouco mais de 43 km², resultando em densidade extremamente elevada.

Ao final do relatório, a MSF defende a adoção de medidas urgentes, incluindo a liberação de equipamentos essenciais, a garantia de acesso para trabalhadores humanitários e o fim dos deslocamentos forçados. A organização ressalta ainda que, conforme o direito internacional humanitário, Israel tem a responsabilidade de assegurar condições mínimas de vida e proteger a infraestrutura civil em territórios sob sua ocupação.

Leia Também

- Publicidade -spot_img
- Publicidade -spot_img

Mais Lidas