O senador Flávio Bolsonaro admitiu ter atuado diretamente nas negociações com o banqueiro Daniel Vorcaro para viabilizar financeiramente um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, após a divulgação de mensagens e áudios revelados pelo The Intercept Brasil. A revelação expôs contradições entre o discurso público mantido pelo parlamentar nos últimos meses e a relação que, nos bastidores, ele mantinha com o empresário investigado.
Segundo a apuração, Vorcaro teria destinado cerca de R$ 61 milhões para a produção do filme “Dark Horse”, obra ainda inédita que retrata a trajetória política de Jair Bolsonaro. O acordo total envolveria aproximadamente US$ 24 milhões, valor que equivalia a cerca de R$ 134 milhões no período das negociações. Parte das conversas obtidas pelo portal mostra cobranças feitas por Flávio ao banqueiro diante de atrasos nos repasses previstos.
Atualmente preso sob acusação de liderar fraudes bilionárias relacionadas ao Banco Master — instituição que acabou liquidada pelo Banco Central —, Vorcaro negocia um acordo de delação premiada com as autoridades.
Após a publicação da reportagem, Flávio reconheceu que buscou apoio financeiro junto ao banqueiro, classificando a operação como um patrocínio privado destinado a um projeto audiovisual privado. A declaração, no entanto, entrou em choque com manifestações anteriores do senador, que vinha negando qualquer proximidade entre sua família e o empresário.
Horas antes da divulgação da investigação, o parlamentar chegou a negar a existência de qualquer financiamento ligado ao banqueiro quando foi questionado diretamente sobre o assunto. Em outras ocasiões, Flávio também afirmou que a tentativa de associar a direita e o bolsonarismo ao escândalo do Banco Master fazia parte de uma estratégia política articulada pelo governo federal.
Nos últimos meses, o senador intensificou ataques ao PT e ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao comentar o caso. Durante eventos políticos e publicações nas redes sociais, Flávio sustentou que o escândalo teria origem em setores ligados ao governo petista, especialmente na Bahia, citando os ministros Rui Costa e Jaques Wagner.
Em um dos atos de pré-campanha realizados em Santa Catarina, Jair Bolsonaro apareceu usando uma camiseta com a frase que associava o Banco Master ao governo Lula. Paralelamente, Flávio passou a defender publicamente a criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar o caso envolvendo Vorcaro.
As críticas do senador se concentravam principalmente nas operações financeiras ligadas ao CredCesta, modalidade de crédito consignado comercializada pelo Banco Master. Dados enviados pela Receita Federal à CPI que investiga o crime organizado apontaram que, entre 2022 e 2024, o banco registrou receitas bilionárias com a venda dessas carteiras de crédito, em valores superiores à receita originalmente gerada pelas operações, o que levantou suspeitas sobre lucros obtidos com a revenda dos ativos.
Mesmo após surgirem informações sobre doações feitas por familiares de Vorcaro à campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio insistiu em afirmar que não existia qualquer vínculo político entre o banqueiro e a direita. Em entrevistas e vídeos publicados nas redes sociais, o senador reforçou a narrativa de que o núcleo central do escândalo estaria ligado ao PT.
O parlamentar também citou reuniões entre Vorcaro e integrantes do governo federal, incluindo um encontro reservado com Lula no Palácio do Planalto, ocorrido em dezembro de 2024 e revelado posteriormente pela imprensa. Segundo Flávio, o episódio reforçaria suspeitas de proximidade entre o banqueiro e o governo.
Dias antes da divulgação das mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil, Flávio ainda defendia que uma eventual delação premiada de Daniel Vorcaro poderia atingir integrantes do governo petista e aprofundar investigações sobre o caso Master.
Agora, a revelação de que o próprio senador negociou recursos milionários com o banqueiro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro amplia o desgaste político em torno do caso e enfraquece o discurso sustentado até então pelo núcleo bolsonarista de que o escândalo atingiria exclusivamente adversários políticos da esquerda.




