Numa longa entrevista à BBC News Brasil, o deputado federal Otoni de Paula fez um duro diagnóstico da política do Rio de Janeiro e afirmou que o estado vive uma profunda degradação ética, com a normalização de práticas ilícitas no poder público, atribuiu responsabilidade à família Bolsonaro e criticou o governo Lula.
Segundo o parlamentar, há uma estrutura organizada que teria capturado o Estado, com acusações diretas ao ex-governador Cláudio Castro e ao ex – presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar. Ele também descreveu um ambiente político marcado por intimidações e disputas de poder baseadas em ameaças.
“Uma quadrilha tomou o Estado, e o cabeça dessa quadrilha é o ex-governador Cláudio Castro. Tem o conluio entre ele e o ex – presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar… Esse Bacellar é um braço do Comando Vermelho na política do Rio de Janeiro ”
Otoni foi além ao afirmar que a política fluminense estaria infiltrada pelo crime organizado, citando o Comando Vermelho como exemplo dessa influência. De acordo com ele, relatórios da Polícia Federal indicariam que dezenas de deputados estaduais teriam algum tipo de ligação, direta ou indireta, com organizações criminosas.
“A política do Rio está tão destruída moralmente que mais de 40 deputados estaduais têm alguma associação com o crime organizado…O Rio de Janeiro já é um narcoestado. O crime já aparelhou a máquina pública. Quando o Estado se confunde com o crime, isso é o quê? Isso é o narcoestado.”
Apesar de se identificar como político de direita, Otoni declarou apoio ao prefeito Eduardo Paes, a quem atribui perfil de gestor e ausência de envolvimento com corrupção ou crime organizado. Ele justificou a posição como uma escolha pragmática diante do que considera um cenário dominado por grupos ilegais.
“Meu interesse no Eduardo Paes é que ele hoje é o único personagem da política do Rio de Janeiro que posso dizer que não está envolvido com corrupção ou com crime organizado. E é gestor… Prefiro votar em um soldado do Lula do que em um representante de uma quadrilha”.
O deputado também criticou a pré-candidatura do deputado estadual Douglas Ruas para o governo do Rio, afirmando que o nome estaria vinculado a interesses que, segundo ele, contribuíram para a crise política do estado.“Ele topou entregar o nome dele para representar uma quadrilha que vem dilapidando o Rio de Janeiro.”
As declarações marcam um rompimento explícito com o bolsonarismo que apoia Ruas. Otoni atribuiu responsabilidades ao senador Flávio Bolsonaro e ao ex-presidente Jair Bolsonaro pelo cenário político do Rio, criticando a influência do grupo nas escolhas eleitorais recentes e a ausência de autocrítica após episódios controversos envolvendo aliados. Otoni acusou diretamente o senador Flávio Bolsonaro: “Não tenho dúvida nenhuma de que Flávio Bolsonaro faz parte dessa quadrilha.”
No plano nacional, o parlamentar fez críticas à condução econômica do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, especialmente na área fiscal – “Na área econômica, é um governo perdulário, que não tem compromisso com o amanha – embora tenha reconhecido características pessoais positivas e a orientação social de suas políticas -“Lula é um cara humano […] faz uma política sincera voltada para aqueles que mais precisam.” .
Falando do distanciamento dos políticos em relação à população disse que a direita teria se aproximado excessivamente de interesses econômicos -“Infelizmente, a direita brasileira resolveu ser um espectro político que defende a elite” – enquanto a esquerda teria perdido conexão com o trabalhador ao priorizar outras agendas – “A esquerda sempre foi das pautas trabalhistas, humanitárias. E, de um tempo para cá, o progressismo identitário encontrou na esquerda o berço dos seus interesses”.




