A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (23) a Operação Miragem, investigação que apura suspeitas de irregularidades financeiras no Digimais, instituição bancária controlada pelo empresário e líder religioso Edir Macedo. A ação ocorre por determinação da Justiça Federal de São Paulo e inclui medidas para bloqueio de patrimônio, quebra de sigilos e cumprimento de mandados de busca.
Ao todo, nove mandados de busca e apreensão estão sendo executados por mais de 50 agentes federais. A decisão judicial também autorizou o sequestro e bloqueio de bens e valores que podem alcançar R$ 670,3 milhões, além do acesso a informações bancárias e fiscais dos investigados.
Segundo a Polícia Federal, o foco da apuração está em um suposto esquema destinado a mascarar a situação financeira da instituição. Os investigadores afirmam que demonstrativos contábeis e registros internos teriam sido manipulados para apresentar uma imagem de solidez econômica perante órgãos reguladores e de fiscalização, permitindo a realização de operações consideradas incompatíveis com as normas do sistema financeiro.
Os envolvidos poderão responder por crimes como gestão fraudulenta, inserção de informações falsas em documentos contábeis e realização de operações de crédito vedadas pela legislação que regula o Sistema Financeiro Nacional.Embora Edir Macedo esteja entre os investigados em razão de sua condição de controlador do banco, não houve pedido de busca e apreensão contra ele. De acordo com a PF, o empresário reside no exterior. Ainda assim, seu nome foi incluído entre os alvos das medidas de bloqueio patrimonial e de afastamento dos sigilos bancário e fiscal.
A operação ocorre em um momento delicado para o Digimais. Nos últimos anos, a instituição vem enfrentando dificuldades financeiras e passou por tentativas de reestruturação e negociações para mudança de controle. Em abril deste ano, o banco firmou um acordo de intenção de venda com o BTG Pactual.
As investigações também coincidem com questionamentos levantados por auditorias independentes sobre a composição dos ativos da instituição. Relatório da empresa Clifton Larson Allen Brasil referente ao segundo semestre de 2025 apontou que o Digimais possuía aproximadamente R$ 3 bilhões aplicados em fundos de investimento cujas demonstrações financeiras não puderam ser auditadas devido à falta de documentação comprobatória. O valor correspondia a cerca de 73% de todos os investimentos do banco nesse tipo de ativo.
O mesmo relatório destacou operações envolvendo fundos de participação recém-criados que registraram valorização expressiva em poucos meses. Segundo os dados analisados, aplicações de R$ 357,6 milhões realizadas no segundo semestre de 2025 passaram a ter valor estimado de R$ 997,5 milhões até dezembro, representando um aumento de 178%.
A valorização gerou impacto positivo de R$ 639,8 milhões no resultado do banco durante o período. No entanto, os auditores registraram ressalvas, afirmando que não foi possível verificar a razoabilidade dos valores apresentados nem mensurar eventuais ajustes necessários, uma vez que os fundos ainda não possuíam demonstrações financeiras auditadas quando o balanço foi elaborado.
A Polícia Federal prossegue com a coleta de provas para esclarecer a extensão das supostas irregularidades e identificar o grau de participação de cada investigado no esquema.




