Em meio aos debates sobre humanização no sistema de Justiça, a 14ª Vara Criminal de Maceió passou a adotar uma iniciativa voltada ao acolhimento emocional de vítimas vulneráveis durante depoimentos. Desde o início de maio, a unidade conta com a atuação da labradora Bela, de cinco anos, integrante do Projeto Cura, criado para reduzir os impactos psicológicos enfrentados por crianças e adolescentes que precisam relatar episódios de violência no ambiente judicial.
A presença do animal ocorre nos dias de audiência e tem ajudado a enfrentar um dos principais desafios das escutas especiais: o nível de ansiedade e tensão apresentado pelas vítimas ao chegar ao fórum. Em muitos casos, crianças atendidas pela vara precisam falar sobre abusos sexuais, agressões físicas, tortura e outras situações traumáticas, o que torna o procedimento emocionalmente delicado.
A proposta surgiu a partir da percepção de que o ambiente formal da Justiça, somado à necessidade de reviver experiências dolorosas, frequentemente dificulta a comunicação das vítimas e aumenta o sofrimento durante os depoimentos. Com a presença de Bela, a equipe técnica da unidade afirma ter observado mudanças importantes no comportamento das crianças, que passaram a demonstrar mais tranquilidade e segurança antes das escutas.
O projeto foi idealizado pelo juiz Caio Barros em parceria com o canil da Polícia Militar de Alagoas, responsável pelo treinamento dos cães utilizados no suporte emocional. Atualmente, Bela permanece na vara às segundas-feiras, quando são realizados os depoimentos, mas a expectativa é ampliar a atuação para outros dias da semana.
Segundo a psicóloga Wanessa Oliveira, a interação com o animal contribui para reduzir a ansiedade e o retraimento das vítimas, facilitando o acompanhamento psicológico e tornando os relatos mais fluidos. A iniciativa busca minimizar a chamada revitimização institucional — quando vítimas acabam revivendo o trauma ao longo das etapas do processo judicial.
A adoção do suporte emocional em Maceió expõe uma mudança gradual na forma como o Judiciário vem tratando pessoas em situação de vulnerabilidade. Mais do que garantir eficiência processual, a iniciativa evidencia uma tentativa de tornar o sistema de Justiça menos hostil para quem chega a ele marcado pela violência.




